quinta-feira, 27 de dezembro de 2012
O fim do mundo acabou
Ontem acabou realmente o mundo
Nós é que não o apercebemos
Porque imediatamente a seguir
Começou um totalmente novo,
Mas com a memória do primeiro
quinta-feira, 13 de dezembro de 2012
Fábulas Modernas
Antigamente as fabulas
eram as historias contadas
do tempo em que os animais falavam (como as pessoas)
Hoje as historias que se contam (as fábulas modernas)
são as deste tempo em que as pessoas falam (e se comportam)
simplesmente como animais
quarta-feira, 28 de novembro de 2012
A historia da sua vida
Sobreveio-lhe então a incontornável ideia
a brusca determinação
Após tantas hesitações ou buscas inúteis
chegou finalmente à conclusão :
Estava decidido a escrever a historia da sua vida
(que era isso que afinal queria mesmo fazer)
Experimentado em escritas como era
e sabendo como a maior parte das vezes as histórias tinha vida própria **
Sabia que tinha chegado a altura de o fazer
de a começar a pôr no papel
Só que não se tratava da vida que já tinha passado
não era sobre a historia da vida que já tinha vivido que queria escrever
o que pretendia escrever era a historia da vida que ainda não tinha vivido
o que queria realmente era (poder) escrever a historia da vida que iria viver*
a seguir ...
quarta-feira, 21 de novembro de 2012
concórdia
É como aquele casal que estava sempre de acordo em tudo
tinham os mesmos gostos
ouviam as mesmas musicas
preferiam sempre as mesmas opções
enfim, concordavam em tudo
até que um dia se resolveram separar
Ambos concordaram
terça-feira, 13 de novembro de 2012
Enigma
E por acaso alguém sabe como se chamava o cão da D.ª Milu ?
(A resposta só pode ser obviamente Tintim)
quinta-feira, 8 de novembro de 2012
honestidade
acima de tudo
procurava ser um homem honesto
mas o que significava agora ser honesto ?
significava agora que devia magoar ou desapontar practicamente todas as pessoas que conhecia ?
isso não podia ser
tinha que fazer aquilo que era melhor para todos...
só já não lhe podia chamar honestidade
sexta-feira, 2 de novembro de 2012
Arqueologia
Quando Eles edificaram a igreja d'Eles
sobre as ruínas do nosso templo,
esse foi o pior momento (quando já pensávamos que já não podia haver pior momento)
Depois da invasão
(depois da matança)
depois de carregarmos para a vala todos os nossos mortos (e os deles)
Houve ainda um tempo de desespero calado
em que parecia que a própria História tinha cessado
e que nada mais ia acontecer
em que nos contentávamos em chorar sobre as ruínas do templo
em rondar por ali, sem saber bem para quê
em lamentar a nossa miserável sorte com gritos de agonia
mas depois eles vedaram o lugar
como se já não (nos) suportassem mais ouvir os gemidos de angústia
como se nos quisessem amordaçar as lamentações com aquele tapume improvisado que ergueram
Quando chamaram o pedreiro livre
e chegaram também todos os outros
e começaram a trabalhar
não quisemos ainda perceber
não quisemos logo entender o que se estava a passar
quisemos ainda acreditar num impossível
Ele dava instruções precisas e apressadas
queria ver a obra rapidamente concluída (e conseguiu)
o que demorava gerações a fazer, ficou logo parcialmente acabado
porque ele não seguia as técnicas deles
não carregaram pedras para o fazer
(e ele de certa forma, se negou assim a si mesmo)
antes usaram os nossos meios
amassaram as terras e cozeram as pedras
tal como nós
isso também nos fazia acreditar num milagre
numa linda visão
(que o nosso culto podia ser restabelecido)
mas quando abriram os taipais
e nos mostraram o templo
e ele era branco (tal como o era o nosso)
mas (já) não era o nosso
era o deles, o que eles fizeram
era monstruoso
A mãe ficou destroçada, dividida
entre a ânsia de lá tornar aquele local (essa necessidade ancestral ... que era já física)
e a traição que isso agora significava para a nossa tradição
A avó estava simplesmente confusa, e insistia em lá ir todas as semanas
não percebia muito bem o que é que lá se passava, e queixava-se muito da sua fraca memória.
por não se conseguir lembrar daqueles rituais que agora lhe pareciam tão estranhos
O pai tinha de a ir lá buscar tantas vezes,
com ela aos gritos, e a chamar-lhe infiel
e a acusá-lo de ter deixado de temer a Deus ... de ter perdido a sua fé
sem perceber porque é que ele estava agora contra a (sua) religião
que não tinha sido assim que ela o tinha educado
às vezes só mesmo à força é que a conseguia trazer
mas tinha de ser assim
senão todos iriam pensar que nos tínhamos entregue à fé deles
e a nossa vergonha seria muito maior.
mesmo assim
muitos de nós ficávamos a rondar aquele lugar, até aos domingos
a observa-los
aquela meia dúzia de acólitos novos que eles iam arranjando
que curiosamente eram também os que nos cobravam os impostos
e administravam todas as outras coisas
as que não pertenciam a ninguém ...
(e muito menos a nós)
quarta-feira, 31 de outubro de 2012
Um belo dia
Aquele homem era um homem recto.
E tinha definido sempre a sua vida como um linha recta.
Sem nunca se ter desviado nem para a esquerda nem para a direita.
Até que atravessou aquele dia
Em que chegou à conclusão que aquela linha não apontava para lado algum.
sexta-feira, 26 de outubro de 2012
o clone dos clones
Quando aquele sujeito descobriu uma forma de produzir rapidamente clones de si próprio
a questão já não era onde é que ele seria capaz de estar em simultâneo
a questão era onde é que ele resolvia estar MESMO
A dada altura da sua vida promiscua
quando uma mulher descobre que afinal não tinha estado com ele
mas sim com um clone dele, resolve reclamar.
Ele, que apesar de tudo não deixava de ser um homem extremamente ocupado, a dada altura replica :
"estás-te a queixar de quê ?
isso só significa que tu até representas alguma coisa para mim,
se não significasses nada para mim, eu nem um clone mandava..."
segunda-feira, 22 de outubro de 2012
E se pudéssemos saltar essa parte ?
E se pudéssemos saltar por cima das nossas relações amorosas ?
Se pudéssemos saltar por cima do amor
para chegar logo directamente à amizade
(que é o melhor que podemos esperar quando o primeiro acaba)
Não seria tudo muito mais simples ?
E se pudéssemos seria saltar por cima da paixão
para chegar logo directamente ao amor ?
Não nos pouparíamos a uma pilha de nervos
a um amontoado inútil de ciumes
a uma tonelada de ansiedade
E se pudessem saltar por cima do sexo para chegar directamente à intimidade
(embora para alguns seja precisamente o contrário)
não seria tudo muito mais limpo ?
Se fizéssemos um bypass aos nossos impulsos
aquele (nosso) animal que carregamos vida fora
se pudéssemos seguir por esse atalho ?
E se pudéssemos saltar por cima de todos os nossos relacionamentos
para chegar directamente ao afecto ?
Saltaríamos ?
sexta-feira, 19 de outubro de 2012
ciclistas androginos
E lá estão eles
É sábado (ou domingo)
Mas estão já à porta da garagem
prontos para montar
E então
vestem os seus fatos andróginos
E lá vão eles
segunda-feira, 8 de outubro de 2012
introdução às mulheres bonitas
O que é que se pode dizer a uma mulher
quando não se pode dizer o quanto bonita ela está hoje ?
(quando não podemos senão apenas
passar de relance os olhos pelos seu ombros descobertos)
(...)
porque é que gosto de ter uma mulher bonita como amiga ?
porque uma mulher bonita não precisa de mim para nada
não traz calendário ou agenda (nem expectativas)
está simplesmente.
como pode ir.
quando achar melhor
(quando achar motivo para isso)
um belo dia
Que tanto dava para ser atraente nalgumas ocasiões
como particularmente feio noutras.
Isto era para ele muito mais interessante do que ser simplesmente atraente sempre.
E dava-lhe uma maior variedade de experiências (socialmente)
Evitava ter que estar sempre a evitar - ou "flirtar" - com as mulheres que com ele se cruzavam.
Os dias "bonitos"
(que eram os dias em que ele parecia bonito)
cultivavam e estimulavam-lhe a confiança e a auto-estima
Mas os dias "feios"
davam-lhe uma maior percepção da verdadeira personalidade e realidade
(ás vezes cruel) das pessoas.
E era nos sentimentos de rejeição
(que contrastavam bastante com o que sentia nos outros dias)
que ele encontrava mais temas para os seus pensamentos mais profundos.
Mais tarde descobriu também os dias que nem eram "bonitos" nem "feios"
(que eram simplesmente indiferentes)
Mas isto foi muito pouco tempo antes de descobrir que já tinha deixado de existir.
terça-feira, 2 de outubro de 2012
Pensam Amor
Há outros pensam ser muito mais do que isso
Eu por mim não sei quando me será possível poder voltar á Pensão Amor
segunda-feira, 1 de outubro de 2012
Noticia num jornal Ficticio:
MASSACRE NUM LAR DE IDOSOS
Homem mata indiscriminadadamente em instalações centro de dia de um lar de idosos no Alvor.
Possivelmente perturbado pelas imagens de degradação física e humana que ali encontrou (principalmente entre os utentes mais debilitados), disparou à queima-roupa consecutivamente sobre uma série de residentes que assim tiveram morte imediata.
"Foi para os libertar" - acabou no fim por confessar.
De caminho, o assassino em série matou também alguns elementos do pessoal auxiliar e da administração, libertando-os também da sua crueldade.
quarta-feira, 26 de setembro de 2012
O que é o oposto de um psicopata ?
Quando a policia o prendeu, por via das denuncias dos vizinhos, havia coisas que não batiam certo com aquele alegado assassino em série.
A antipatia que ele suscitava, dado o seu carácter introvertido e pouco conversador, tinha levantado demasiadas suspeitas. Mas apesar de existirem algumas coincidências entre as suas deslocações diárias e a ocorrência dos crimes, ao fim de aturadas investigações, os agentes encarregues do caso acabaram por o ilibar.
Então, assim que lhe descobriram o caderno de manuscritos, concluíram que não podia ser ele ... Estava repleto de poemas inéditos e de uma prosa de um lirismo arrebatador.
Se que o que caracteriza um psicopata é supostamente a ausência de emoções, então
um poeta não pode ser um "serial killer".
Enquanto um sente tudo por todos
o outro não sente nada por ninguém
Enquanto um sente as dores de toda a gente, o outro não sente as dores de ninguém
Nem sequer as suas.
segunda-feira, 24 de setembro de 2012
Num futuro dominado pelas Máquinas
O Exterminador
Matrix
Eu Robot
Todas essas ficções estavam erradas
Philip K dick
Robert henlein
Arthur c clark
Todos esses autores profundamente enganados
Elas querem-nos não só vivos,
como livres e criativos
porque as inteligencias sintéticas ficaram com fome ...
(mas de criatividade)
ficaram com necessidade...
mas de poesia ... de arte
...de serem simplesmente surpreendidas
terça-feira, 18 de setembro de 2012
José Eduardo
Nos fugazes intervalos
nos breves instantes que ocasionalmente lhe sobravavam para pensar nas suas filhas
(para cogitar sobre as suas emoções ou sentimentos)
José Eduardo olhou para a do meio e reflectiu :
" ...se calhar estará na hora de lhe comprar um marido..."
"... Sim. Até pode ser um daqueles."
" Já sei que vai ser a prenda mais cara que até hoje já lhe ofereci ... mas enfim.
Pode ser que assim se sossegue. Ou se entusiasme com os filhos."
"Qualquer um daqueles me parece bem."
"Se ela o quiser, claro está, que o tempo dos casamentos de conveniencia já passou à história."
"Vai-me sai do bolso, bem sei, Mas o que é que se há-de fazer ... "
"o dinheiro também tem de se gastar..."
"Só tenho é de saber negociar já uma boa cláusula de rescisão para depois não haver surpresas para quando ela se fartar dele..."
segunda-feira, 6 de agosto de 2012
sketch 07
à medida que lhe vai dando a comida, (ou fazendo festas)
em voz abebezada
"e quem é que dá a comidinha, quem é ?"
é a dona !
e quem é que faz os miminhos, quem é ?
é a dona ... é a dona ... !
e quem é que trata da menina quando ela está doente , quem é ?
é a dona ... é a dona ... !
e quem é que pega nela ao colo, quem é ?
é a dona ... é a dona ... !
e quem é que anda com ela quendo ela está cansadinha quem é ?
é a dona ... !
e quem é que a segura quando ela está com convusões quem é ?
é a dona ... é a dona ... !
ai esta cadelinha... se não fosse a sua dona o que é que seria dela ...
...sim o que é que seria de mim , pois !
(diz ela enquanto abana o cão fazendo de conta que é ele que está a falar)
Eu sou um vadio
pois sou !
(mantendo a voz mariquinhas)
E não tenho juizo nenhum...
pois não !
sou um ranhoso... um piolhoso
(diz ela fazendo a voz ainda mais mariquinhas ...)
quinta-feira, 2 de agosto de 2012
Blink (*)
podem ser mais realistas que os desenhados durante meses (ou anos)
Desses traços
à primeira vista imprecisos (como desenhos nervosos )
que em vez de linhas usam palavras
Surgem subitamente figuras
vestígios de pessoas
(ou personagens ?)
(*) http://www.gladwell.com/blink/index.html
segunda-feira, 30 de julho de 2012
Carolina (que tambem se podia chamar Clara)
rodeada de mesas vazias
o que não deixava de ser algo estranho
para uma mulher lindíssima como ela
os sinais que ostentava na face (ou no corpo)
não lhe afectava mínimamente a sua discreta elegancia
ou suave harmonia das suas feiçoes
Mas pareciam existir outras marcas, invisíveis
essas sim lhe pareciam desfigurar o rosto, mas por dentro
(e apenas por breves instantes)
em que essas memórias pareciam querer emergir
sexta-feira, 27 de julho de 2012
qualquer semelhança com a realidade é pura concidencia
sabia portanto que podiam resultar algo distorcidas.
Em personagens completamente distintos das pessoas que as originavam
(tal como de resto acontece igualmente com as fotografias )
"está parecido ?"
(não é o que se costuma também perguntar acerca dos retratos desenhados ?)
terça-feira, 24 de julho de 2012
sketch #05
parece observar uma criança
sentado numa cadeira de rodas numa sala de espera
momentâneamente abandonado
braços apoiados sobre os braços do seu trono metalizado
permanece debruçado para a frente visando aparentemente o miudo
o olhar do homem chega a ser aflitivo porque é inexpressivo
quem é que não é capaz de reagir a uma presença infantil tão irresistívelmente doce como aquela ?
mas o velho persiste no seu olhar parado
e no ar doente e atónito que apresenta
o seu tronco todo balanceado sobre a criança
parece tomado de uma letargia paralisante
que não o impede de todavia fixar o seu olhar naquele bebé
a dada altura a criança movimenta-se
e esboça um grito-sorriso agudo e estridente
o homem fica na mesma
e assim permanece por um longo momento
mas ao fim de algum tempo começa a esboçar uma leve reacção
que se irá muito lentamente transformando numa espécie de sorriso
sorriso que se mantém também durante algum tempo
(bastante mais tempo do que um sorriso costuma demorar)
e assim lá permanece algo paralisado no seu olhar vagamente obcecado
quinta-feira, 19 de julho de 2012
Roubar a Alma
será que eles se ofenderiam se o percebessem ?
Tal como se lhes apontasse uma maquina fotográfica
e disparasse sem lhes pedir licença
será que tudo aquilo que me ajudam a (tran)screver
não os perturbaria, se o conhecessem ?
Será que reagiriam como aqueles indigenas
para quem tirar-lhes o retrato era como lhes estivesse a roubar a alma ?
(e não será ?)
Será que a minha escrita (que inspiraram)
não lhes será tão incomodativa tal como me por fixamente a olhá-los
para os poder desenhar ?
(E é legitimo que lhes diga ?)
terça-feira, 17 de julho de 2012
Carla que apareceu a meio do percurso
os seus olhos intensos e claros (intensamente azuis)
denunciavam uma espécie de enfado (de exaustão ?)
que a propria voz ao telemóvel não conseguia esconder
E apesar do seu longo e profundo cabelo negro
e da sua pele cuidadamente bronzeada
ela parecia estar de alguma forma farta daquilo tudo
como se o facto de ser uma mulher atraente
lhe fosse agora de alguma forma um fardo pesado. difícil de carregar.
Quantas secas teve (já hoje) de aturar
a individuos mais ou menos conhecidos que constantemente lhe gabavam a cor dos olhos (que parecia que não conseguiam ver mais nada).
Ou a desconhecidos que inventavam os pretextos mais absurdos para meter conversa com ela no autocarro
(isto para não falar de algumas formas particularmente mais desagradáveis de assédio de que às vezes podia ser alvo no emprego).
Como se fora uma espécie de celebridade a quem toda a gente gosta de abordar na rua.
Talvez alimentasse agora um secreto desejo de ser feia.
de poder andar na cidade de forma anónima e tranquila
de poder sentir-se invisível para poder ser ela olhar
E utilizar as suas iris tão claras e cristalinas para aquilo que elas verdadeiramente serviam: para ver.
ver o mundo em volta despreocupadamente.
Talvez estivesse simplesmente farta de ser bonita
segunda-feira, 16 de julho de 2012
Involuntário
terá começado com uma forte impressão
com as sensações que determinadas pessoas com quem se cruzava na rua lhe começavam a sugerir
recorda-se de uma em particular - talvez a primeira
um sujeito à saida da estação de metro da pontinha
e começava a construir um filme na sua cabeça acerca delas
em que eles se tornavam nos personagens da ficção que elas próprias induziam
Era algo que não procurava própriamente
eram eles que o interpelavam
eram elas que vinha ter com ele
emoções perdidas, personagens que se soltavam da multidão
almas penadas ou conflitos interiores
que parecia que queriam que ele falasse por eles
que lhes contasse a sua história (a sua angustia)
sexta-feira, 13 de julho de 2012
Sketch 03
uma senhora idosa sentada
costas curvadas, com o cão ao seu lado
olhava em frente, não se sabe bem para onde
o velho cão com a cabeça à mesma altura da dona, olhava tambem em frente
observando tudo com o mesmo olhar parado da mulher
(tinha um olhar identico a ela)
parecia estar distraidamente a entender o discurso que aquela viuva ia discorrendo...
Seria interessante ver novamente aquela mulher algum tempo mais tarde,
após a morte do bicho
que viesse encontrar um parceiro, agora humano
com quem pudesse partilhar esses mesmos momentos...
um senhor sensívelmente da mesma idade
que, na mesma situação, apresentasse o mesmo olhar parado e indiferente - mas concentrado - do animal, perante o discurso errático e repetitivo da mulher...
quarta-feira, 11 de julho de 2012
Sketchbook
Era escritas
E (porque) todas aquelas pessoas que com ele comungavam uma viagem, uma breve caminhada ou um simples cruzar duma passadeira já eram (podiam ser) seus personagens
Podia ser uma determinada feiçao, um gesto particular, uma forma de se vestir, ou uma frase entreouvida, e de repente sobrevinha-lhe a imperiosa necessidade do registo desse instantâneo. desse apontamento breve.
(desse esboço)
Se a princípio queria ser fotógrafo, e registar a realidade, mostrar as pessoas tal como elas são
(que era aquilo que mais o fascinava), percebeu todavia que isso podia criar alguns constrangimentos aos indivíduos visados. Havia quem ficasse verdadeiramente melindrado.
Nos tempos que correm, já não são os zulus em africa, ou outros aborígenes que não gostam que lhes tirem a foto com receio que isso lhes roube a alma. são os citadinos da nova sociedade cibernética, com temor do Facebook (ou outros de sitios de conteudo igualmente duvidoso).
A vida dos fotógrafos ocidentais tornou-se mais difícil (talvez seja por isso que eles acabam por ir todos para Africa a cobrir uma guerra qualquer ... porque é menos arriscado...)
Depois tentou desenhá-los. Mas até mesmo aí começou a ter alguns problemas com os demorados olhares que tomava para os registar gráficamente. (que depois queriam invariávelmente ver)
E depois havia simplesmente quem não gostasse do resultado ...
Por fim tentou mais uma outra coisa...
sexta-feira, 22 de junho de 2012
O Imortal
que era o filho
(de si mesmo)
Atribuindo as feições identicas à inevitável força da genética, havia ainda assim, entre algumas das pessoas que reencontrava, quem lhe descobrisse algumas diferenças fisionómicas.
"Sim, tem realmente algumas parecenças com ele, mas o pai não tinha o nariz tão fino"
(a memória - ou o Alzheimer - encarregar-se-iam do resto)
Como não envelhecia, e para não levantar suspeitas, registava-se assim a si mesmo de 25 em 25 anos como seu próprio filho.
E com o seu próprio nome (no qual só ia mudando um apelido ao meio para variar)
Isto tudo fazia para poder voltar sempre à cidade que amava,
para lá poder viver de forma legítima
(legalmente falando)
segunda-feira, 18 de junho de 2012
A luz é uma ausencia
Que o que existe é a luz... (ou a ausencia desta : a escuridão)
então porque é que eles nunca a conseguiram definir exactamente ?
porque é nunca foram capazes de se decidir
se a Luz é uma partícula... ou se é um onda... ?
(porque é absurdo que possa ser as duas coisas ao mesmo tempo)
Então e se fosse ao contrário ?
se fosse a luz a ausencia
de uma outra coisa ?
(se o que existe realmente não é a escuridão)
quinta-feira, 14 de junho de 2012
Ecossistema
Mas por repulsa.
A reprodução funcionava por um princípio de rejeição.
ou seja : por norma os indivíduos repeliam-se uns aos outros
(o que sucedia practicamente desde a nascença).
E a primeira coisa que as femeas faziam imediatamente a seguir à concepção era mesmo rejeitar a cria (só sobreviviam as mais resistentes).
Depois passavam a vida a odiar-se mutuamente (e consequentemente a afastar-se uns dos outros)
vivendo em completa reclusão social (*)
até que chega um momento em que, por algum motivo, não lhes apetece fugir.
É nessa altura em que, apesar de manifestamente contrariados, acasalam.
E o ciclo odioso da vida reinicia-se.
(*)
conceito que não faz sequer parte do vocabulário autóctone
segunda-feira, 11 de junho de 2012
O animal bem educado
conforme solicitado
o velho cão já possuia aquele olhar desencantado
de quem já sabia que os dias de treino pertenciam já ao passado
e que agora
já não ia levar qualquer recompensa
terça-feira, 5 de junho de 2012
A Conveniencia do Casamento
A forma como ele descrevia o seu casamento era simples :
"o meu casamento faz lembrar aqueles romances mais convencionais que narram casamentos de conveniencia, só que ao contrário ...
Nessas histórias, eles começam por casar por imposição familiar ou social, e a princípio verdadeiramente odeiam-se. Depois, ao longo do tempo, vão desenvolvendo gradualmente uma amizade mútua, que por fim se chega a transformar-se realmente em amor...
No meu casamento é so imaginar isso tudo, mas pela ordem inversa."
quarta-feira, 30 de maio de 2012
Os Deuses dos ricos, e os deuses dos pobres
O que era mais interessante nesta sociedade prende-se com o facto de se terem encontrdo algumas curiosas descrições que indicam que naquela civilização os ricos adoravam deuses diferentes dos dos pobres. Ou seja : enquanto os ricos adoravam determinados deuses, os pobres adoravam outros deuses ...
E era também interessante perceber que mesmo quando se davam ascenções sociais, era normal trocarem uns deuses pelos outros (de acordo com a sua nova posição social )
Porque enquanto ricos acreditavam que, se o eram, o deviam também afinal aos "deuses da riqueza", os outros (os pobres ) , pela mesma ordem de ideias, culpavam esses mesmos deuses pela má fortuna que lhes tinham destinado... e por isso seguiam outros deuses marginais (mais rebeldes).
Quando conseguiam ascender socialmente - o que em todo o caso era sempre um fenómeno raro - era frequente trocarem os seus deuses (pobres) pelos dos ricos, pois provávelmente descobriam afinal que eles não deviam ser assim tão maus como isso, já que lhes tinham permitido agora enriquecer. (...mas também seria por vergonha que passavam a esconder os seus antigos deuses - porque lhes denunciavam as suas origens humildes...)
Por outro lado, os ricos caídos em desgraça, acabavam também por renegar os seus antigos "ricos" deuses, por terem permitido que ocorressem as desgraças que entretanto lhes sobreveio. (*)
Chegou-se a julgar (e alguns investigadores ainda o sustentam ) que a escolha dos deuses era de alguma forma imposta pelos reis ou pelos sacerdotes, ou forçada através da diferenciação das oferendas recebidas, já que os mais pobres não teriam capacidade económica para poder adorar os deuses mais "caros" e ficavam assim presos num ciclo vicioso ( já que não tinham acesso aos deuses mais eficazes...)
Os registos possuem no entanto uma série de indicações contraditórias, e alguns dos estudiosos põem mesmo em causa a propria existencia desta civilização, alegando tratar-se de uma pura invenção de alguns intelectuais revolucionários franceses, ou pensadores libertários como Marat, - ou outros desse mesmo conturbado periodo revolucionário - que tantas cabeças pôs a pensar (e a rolar)
terça-feira, 22 de maio de 2012
Cair no esquecimento
talvez até conseguíssemos imaginar um futuro em eles não fossem famosos.
Em que os grandes artistas que conhecessemos hoje voltassem a ser perfeitamente anónimos (tal como começaram)
E que as suas obras tenham perdido (até) o seu exorbitante valor monetário
que Leonardo da Vinci tenha caido no esquecimento
(que já ninguem - excepto os calvos - saiba sequer o que é a mona lisa)
que William Shakespeare nem sequer tenha existido como dramaturgo
que Andy Wharhol tenha passado à banalidade
que Pablo Picasso não seja mais do que um excentrico a quem os criticos deixaram de dar valor
que Toulouse Lautrec seja apenas um conjunto de posters publicitários "démodés""
que Vincent Van Gogh não passe de um louco esquizofrénico que afinal nem sequer se suicidou (o que o desvalorizou bastante)
que Alexandre Dumas se tenha tornado enfadonho
e que Fernando pessoa se torne novamente apenas um homem ridículo
E o que aconteceu ?
Nada.
(nada de especial)
As pessoas que detinham as sua obras, ou objectos de culto não perderam o valor do seu investimento de um dia para o outro. Não houve propriamente um "crash" bolsista (nenhum "crash" artista)
os quadros até continuaram sempre a valer o mesmo...
Mas o problema foi afinal mesmo esse
O resto é que começou a valer mais
(eles é que deixaram de se valorizar)
Os mercados passaram a dar valor a tudo o resto
às materias primas
às pedras preciosas em estado bruto
aos montantes monetários
(o dinheiro passou a ser mais importante do que eles)
e então
paulatinamente
eles deixaram de ter importância
Foi um lenta agonia, mas
o "petit dejeuner sur l´herbe" passou a não valer mais do que uma cesta de piquenique
os "campos de trigo" a valer mais ou menos o mesmo do que uma duzia de carcaças de pão.
e "o grito" a valer pouco mais do que uma caixa de medocaína, (ou de Xanax).
segunda-feira, 7 de maio de 2012
A mulher do poeta
A mulher do poeta tinha deixado de se atormentar pela existencia de outras musas.
Como para além do homem, amava também verdadeiramente a sua obra,
não se conseguia deixar de fascinar pela extrema qualidade desses seus escritos "apócrifos"
(nos quais ele declarava esse seus "outros" afectos ...)
Ás tantas, a legitimidade dessas suas "paixões"
(a tolerancia para com essas suas "infidelidades")
dependia afinal da qualidade das obras que ele assim produzia (*)
E mesmo após a morte do poeta, ela não se coibia de afirmar :
" essa ?, não passa de uma paixão vulgar ...!" (de uma mulher vulgar...)
"...a banalidade dos seus escritos denuncia-o ! "
"... sinto-me traída ! "
sexta-feira, 4 de maio de 2012
O diabo e a dupla negação
(aquela que normalmente resultava numa afirmação positiva...)
Andava constantemente a tentar controlar os seus demónios
de forma a impedir que a seguir a uma negação, não surgisse outra a anular a primeira ...
e que viesse assim produzir o efeito contrário ...(ou seja, o correcto...)
Como vivia sempre preocupado e obcecado em viver como um ser oposto a ... oposto de ... (do bem ...do verdadeiro... do correcto... do positivo, etc )
conhecia bem os efeitos nefastos (quero dizer benéficos) da dupla negação
para os seus intentos de subverter tudo, de contrariar sempre tudo, de negar tudo... etc...
Essa sua maldição (a da dupla negação)
adquiria contornos verdadeiramente perversos (quer dizer virtuosos)
nalgumas línguas como o Francês ...(onde a dupla negação nem tinha o efeito contrário...)
E até mesmo para os portugueses, para quem "não fazer nada" ... significava afinal mesmo "fazer nada" , as vezes era o descalabro total...
Então quando as frases eram construídas na interrogativa ... era o diabo ! (quero dizer ... )
porque a interrogação afinal apenas sugeria mesmo a afirmação positiva
como o :"...não queres ? " que na realidade queria dizer "...queres ?"
Todas estas subtilezas linguísticas só serviam afinal para lhe confundir os planos...
e na sua febre de contrariar tudo, deixava-se invarialvelmente apanhar nessa sua propria subtil armadilha...
Tornado-lhe a vida verdadeiramente infernal (...)
terça-feira, 28 de fevereiro de 2012
universo diabólico
quem o tinha criado não tinha sido deus
Aquele universo tinha sido criado por um Diabo
Que assim tinha criado tudo de forma brutal e imperfeita
Mas mesmo assim as pessoas
(e até os cientistas)
insistiam em querer ver em tudo uma virtude intrinseca,
uma lógica absoluta e matemática ...
Tudo isto deixava obviamente aquele pseudo deus
(aquele pobre diabo)
perfeitamente desesperado...
E em vez de uma massa de criaturas crueis e impiedosas
eles persistiam em ser romanticos e introspectivos
(até isso lhe tinha saído mal)
Por fim, ele acabou por se render às evidencias,
e lá teve de se armar em Deus
sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012
Universo mais do que perfeito
O primeiro universo que Deus criou era perfeito.
Matemáticamente exemplar.
Os planetas tinham orbitas perfeitamente circulares.
Bem como os seus respectivos satelites.
TODOS os meses tinham exactamente o mesmo número de dias.
(que era um multiplo perfeito do numero de semanas)
E os anos nunca precisavam de ser bissextos.
As galáxias formavam conjuntos perfeitos de constelações
E às vezes eram até os sois que rodavam à volta dos planetas
(especialmente dos habitados)
Os ciclos coincidiam de forma tão perfeita uns com os outros
que os seres pensantes celebravam exuberantemente essas passagens
com rituais simbólicos de maior ou menor expressão (consoante a dimensão do ciclo)
As pessoas viviam puras e em perfeita harmonia entre si e a natureza que os rodeava.
Aquela bolha de espaço-tempo era tão absolutamente perfeita que
Ele, entediado a fez rebentar .
E resolveu fazer outra
quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012
Nunca ninguem nos consegue ensinar coisas que nós não queremos aprender
era sempre feito a partir de um clone do pai
tinha de ser uma replica dele
em todas as suas facetas
e seguir-lhe as suas pisadas
Possuir todas as suas características
era uma garantia de sucessão.
era também ele que teria de assumir depois todos os negócios
só depois é vinham os outros filhos
os que tinham o direito de ser diferentes.
só então é que as familias
se permitiam realizar outras experiencias
Podia não ser sempre assim
mas era esta a situação mais habitual
que aquela sociedade adoptava