sexta-feira, 2 de novembro de 2012
Arqueologia
Quando Eles edificaram a igreja d'Eles
sobre as ruínas do nosso templo,
esse foi o pior momento (quando já pensávamos que já não podia haver pior momento)
Depois da invasão
(depois da matança)
depois de carregarmos para a vala todos os nossos mortos (e os deles)
Houve ainda um tempo de desespero calado
em que parecia que a própria História tinha cessado
e que nada mais ia acontecer
em que nos contentávamos em chorar sobre as ruínas do templo
em rondar por ali, sem saber bem para quê
em lamentar a nossa miserável sorte com gritos de agonia
mas depois eles vedaram o lugar
como se já não (nos) suportassem mais ouvir os gemidos de angústia
como se nos quisessem amordaçar as lamentações com aquele tapume improvisado que ergueram
Quando chamaram o pedreiro livre
e chegaram também todos os outros
e começaram a trabalhar
não quisemos ainda perceber
não quisemos logo entender o que se estava a passar
quisemos ainda acreditar num impossível
Ele dava instruções precisas e apressadas
queria ver a obra rapidamente concluída (e conseguiu)
o que demorava gerações a fazer, ficou logo parcialmente acabado
porque ele não seguia as técnicas deles
não carregaram pedras para o fazer
(e ele de certa forma, se negou assim a si mesmo)
antes usaram os nossos meios
amassaram as terras e cozeram as pedras
tal como nós
isso também nos fazia acreditar num milagre
numa linda visão
(que o nosso culto podia ser restabelecido)
mas quando abriram os taipais
e nos mostraram o templo
e ele era branco (tal como o era o nosso)
mas (já) não era o nosso
era o deles, o que eles fizeram
era monstruoso
A mãe ficou destroçada, dividida
entre a ânsia de lá tornar aquele local (essa necessidade ancestral ... que era já física)
e a traição que isso agora significava para a nossa tradição
A avó estava simplesmente confusa, e insistia em lá ir todas as semanas
não percebia muito bem o que é que lá se passava, e queixava-se muito da sua fraca memória.
por não se conseguir lembrar daqueles rituais que agora lhe pareciam tão estranhos
O pai tinha de a ir lá buscar tantas vezes,
com ela aos gritos, e a chamar-lhe infiel
e a acusá-lo de ter deixado de temer a Deus ... de ter perdido a sua fé
sem perceber porque é que ele estava agora contra a (sua) religião
que não tinha sido assim que ela o tinha educado
às vezes só mesmo à força é que a conseguia trazer
mas tinha de ser assim
senão todos iriam pensar que nos tínhamos entregue à fé deles
e a nossa vergonha seria muito maior.
mesmo assim
muitos de nós ficávamos a rondar aquele lugar, até aos domingos
a observa-los
aquela meia dúzia de acólitos novos que eles iam arranjando
que curiosamente eram também os que nos cobravam os impostos
e administravam todas as outras coisas
as que não pertenciam a ninguém ...
(e muito menos a nós)
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