Chegou com um ar algo cansado à camioneta
os seus olhos intensos e claros (intensamente azuis)
denunciavam uma espécie de enfado (de exaustão ?)
que a propria voz ao telemóvel não conseguia esconder
E apesar do seu longo e profundo cabelo negro
e da sua pele cuidadamente bronzeada
ela parecia estar de alguma forma farta daquilo tudo
como se o facto de ser uma mulher atraente
lhe fosse agora de alguma forma um fardo pesado. difícil de carregar.
Quantas secas teve (já hoje) de aturar
a individuos mais ou menos conhecidos que constantemente lhe gabavam a cor dos olhos (que parecia que não conseguiam ver mais nada).
Ou a desconhecidos que inventavam os pretextos mais absurdos para meter conversa com ela no autocarro
(isto para não falar de algumas formas particularmente mais desagradáveis de assédio de que às vezes podia ser alvo no emprego).
Como se fora uma espécie de celebridade a quem toda a gente gosta de abordar na rua.
Talvez alimentasse agora um secreto desejo de ser feia.
de poder andar na cidade de forma anónima e tranquila
de poder sentir-se invisível para poder ser ela olhar
E utilizar as suas iris tão claras e cristalinas para aquilo que elas verdadeiramente serviam: para ver.
ver o mundo em volta despreocupadamente.
Talvez estivesse simplesmente farta de ser bonita
Sem comentários:
Enviar um comentário