terça-feira, 1 de dezembro de 2015

E depois do Amor

Naquela espécie
depois do sexo os  machos deixam de saber o que fazer

Após ejacularem (após o acto)
perdem simplesmente a capacidade de se projectar no futuro

Naqule momento
na sua cabeça fica um vazio

uma absoluta inexistência
de pensamentos ou conceitos

A única coisa que podem
ou sabem fazer é outra vez à mesma coisa

a quem lhes apareça pela frente
(nas mesmo para isso ainda precisam de algum tempo)

Por isso
não nos devemos admirar com o que acontece aos Louva-a-Deus,
ou aos machos das viúvas negras

Que são logo ali devorados
(ou simplesmente lhes arrancam a cabeça)

Eles na realidade já não teem de facto mais nada dentro delas

Estão vazios
de ideias ou projectos

Naquele momento
estão já em morte cerebral

Já não estão vivos

E a sua morte
ou decapitação

É apenas um golpe de misericórdia

quarta-feira, 11 de novembro de 2015

O Príncipe (parte 2) - Ou a verdadeira natureza dos feitiços -

Porque havia também outras mulheres
que através de uma sorte de feitiços ou outras artes de conversação
possuíam a prodigiosa capacidade de aprisionar as demais

É impressionante a facilidade
com que uma mulher é capaz de sequestrar uma outra
com uma simples expressão (ou) um comentário.

E que com palavras, frases ou até pequenos gestos
(e é esta a verdadeira natureza dos feitiços)
se pode vincular alguém a uma determinada condição.

Algumas ficavam convertidas em estátuas apenas com um olhar.
(destas já nos contaram algumas outras fábulas)
Outras acabavam simplesmente confinadas
a um conjunto de gestos ( sociais ) predeterminados
a que alguns resolveram chamar etiqueta

Isto acontecia muitas vezes
sem que as proprias sequer se aprecebessem
E tal como qualquer outro busto em mármore
com as suas poses já todas predefenidas

Já não se viam a si próprias,
através do seu próprio olhar
mas apenas através do olhar dos outros
(... ou das outras...)

E assim ainda que aparentemente se movimentassem
e se deslocassem no espaço
Não deixavam de ser estátuas
sem vida própria
até ao fim dos seus dias.

sexta-feira, 6 de novembro de 2015

O Príncipe (parte 1)

Quando aquele Príncipe olhou à sua volta
Descobriu que as princesas não estavam apenas prisioneiras em torres
mas que se deixavam aprisionar de muitas outras formas.

E que as donzelas (e algumas outras damas)
Até se deixavam encerrar também em locais muito mais acessíveis :
Nas suas casas, nos seus empregos, ou mesmo em locais públicos.

Mas mesmo as que se encontravam presas nas torres
normalmente já  nem se apercebiam sequer que estavam cativas.

Quando tentou compreender melhor a razão destes estranhos fenómenos
percebeu afinal que ao contrario do então que se pensava
não tinham sido os homens que as tinham efectivamente aprisionado

Mas que eram na realidade as próprias
que se iam aprisionando a elas mesmas
das mais variadas formas.

quarta-feira, 28 de outubro de 2015

A anatomia de Gray

Quando Dorian desapareceu,
a Filomena nunca desaparecia a esperança de o reencontrar.

Filho precoce de uma adolescência mal resolvida
era criança que crescia ao mesmo tempo que ela própria crescia também

Com a sua perda, bruscamente
Ele subitamente deixava de crescer.
Enquanto ela simplesmente envelhecia.

Depois, quando a raiva e o desespero tinham já dado lugar a uma aguda melancolia
aquela mãe limitava-se apenas a contemplar as diversas imagens que os peritos da polícia lhe iam desenhando.

Que iam sendo ajustadas e adaptadas
de acordo com as diversas idades  que o filho supostamente ia atingindo

Estes retratistas
que agora usavam computadores, e tacteis
em vez de pinceis e lápis

iam assim ajustando digitalmente
a fisionomia daquela criança

A anatomia das feições daquele menino
que se tornava rapaz e homem.

Mas por mais que a sua imagem
fosse envelhecendo na parede ou no ecrãn

Para ela
ele na verdade nunca envelhecia

Ao contrário do que sucedia ao seu retrato
no seu coração de mãe
Dorian mantinha-se sempre jovem.

terça-feira, 1 de setembro de 2015

Monogamia (e outras ficções)

Naquele futuro havia 2 sociedades :
A dos monogâmicos
e a dos poligamicos

E eram 2 comunidades que não se misturavam
(assim haviam todos decidido)

Assim que entravam na posse da sua puberdade
os indivíduos eram convidados a escolher a que mundo é queriam pertencer :
se ao dos monogâmicos
se ao dos poligamicos
e esta escolha era vinculativa *

Os monogâmicos, apesar de mais rigidos nas suas relações, eram mais estaveis,
conseguiam estruturar famílias, e desenvolver de forma mais ordenada as suas sociedades.
Mas não conseguiam deixar de fazer sentir aos seus correligionários
uma certa sensação de asfixia e marasmo.

Os poligâmicos, por seu lado,
sabiam que o contraponto natural da sua intrínseca liberdade
era uma por vezes intolerável solidão.

Dos encontros fugazes entre estes 2 mundos
resultavam por vezes muitas migrações.
quer num sentido
quer no outro.

Se havia muitos monogâmicos
que a dada altura das suas vidas eram impelidos a lançar-se para essa outra sociedade

Havia também muitos poligâmicos
(principalmente homens)
que acabavam por se deixar seduzir
por quem os levasse a retornar a esse outro mundo
de onde afinal todos provinham.

quinta-feira, 27 de agosto de 2015

Religião

O geométrico Muçulmano 
discutia com o Católico figurativo :
"é tudo uma questão de padrões ! " - dizia ele.

Nada que o icônico Ortodoxo não tivesse já contra argumentado.
"Deus não é uma abstracção !" - afirmava então.

Durante este tempo todo
o Budista permanecia em silencio

"Mas o vazio, esse não é uma possibilidade !"
Disse finalmente o Hindu.

Para nós, a palavra é-nos suficiente.
contestaram os protestantes.

Deus nos livre é de usarmos vogais...
conclui por fim  o Judeu.

quinta-feira, 6 de agosto de 2015

As mulheres de Babel

Uma das ideias que as pessoas erradamente atribuem às torres de Babel
reside no facto de se julgar que elas de repente passaram a utilizar palavras distintas.

Ora isso não passa de um mito.
De um erro histórico grosseiro.

Elas na realidade continuaram a usar exatamente as mesmas palavras.
Só que de forma distinta.

E por isso mesmo,
não se tornou imediatamente evidente que elas não falavam de facto a mesma língua.

Por isso mesmo,
durante muito tempo toda a gente acreditava que elas falavam a mesma lingua.
Apenas porque utilizavam as mesmas palavras.

Mas os seus significados eram afinal completamente distintos.
E então aquela aparência sonora idêntica, aquela construção verbal similar, apenas servia para os confundir ainda mais.

Tomemos por exemplo a palavra Amor.
Enquanto para eles significava uma emoção. Um sentimento.
Uma força que podia despontar entre 2 seres,
independentemente das suas circunstâncias, origens, raças ou credos.

Para elas significava uma coisa absolutamente distinta :
Um estado. Uma consonância, um acordo.
Uma situação. Uma concordância, um encontro (de condições ?).
Ulma conjugação de esforços.

E assim, ao invés de se conseguirem entender melhor através do diálogo,
pelo contrário.
Da troca de palavras só se conseguiam ir confundindo mais e mais um ao outro.

Porque era apenas isso mesmo que tinha acontecido.
Uma troca de palavras.

segunda-feira, 3 de agosto de 2015

Crime passional

O plano era sempre o mesmo :

Matá-la a sangue frio
e suicidar-se logo de seguida.

Todavia surgiu--lhe um contratempo.
e acabou por ter de inverter a ordem.

quarta-feira, 22 de julho de 2015

Amor não correspondido

Ele
estava convencido que era ela que gostava dele

Ela
estava convencida que era ele que gostava dela

E foi assim
que os dois acabaram por se juntar.

O pior
foi quando ambos descobriram a verdade.

quinta-feira, 18 de junho de 2015

Mediação conjugal

ELA :
Eu só quero que as coisas possam voltar a ser como eram

ELE :
Eu só quero que as coisas nunca mais voltem a ser daquela forma

segunda-feira, 1 de junho de 2015

O problema

O meu problema enquanto casado
É que não parava de me apaixonar por outras mulheres.

Mas agora que estou separado
deixei de me conseguir apaixonar seja por quem for.

Acho que finalmente resolvi o problema

sexta-feira, 15 de maio de 2015

Ele e Ela

Primeiro encontraram-se
Depois apresentaram-se
E gostaram.

Ele conheceu a rapariga que gostava que Ela fosse
Ela conheceu o rapaz que gostava que Ele fosse
Deram-se lindamente.

Os problemas começaram todavia a surgir
quando o rapaz que gostava que Ele fosse
conheceu a rapariga que gostava que Ela fosse

Nao havia empatia

A rotura acabou por dar-se quando por fim
Ele a conheceu a Ela
e Ela o conheceu a Ele

quinta-feira, 7 de maio de 2015

Era uma vez

A princesa vivia aprisionada na Torre
o Castelo era cercado por um fosso repleto de crocodilos ferozes
O Palácio guardado por um terrível Dragão vomitador de fogo,
E para além disso... ainda havia o feitiço...

Só que afinal

A princesa era já casada
o Castelo e o Palácio uma imponente propriedade imobiliária (offshore )
adquirida com ganhos obtidos em especulação financeira pelo Dragão,
O implacável marido.
que passava o dia a vociferar contra ela palavras incendiárias

A Torre ?
era a conveniência
com que sempre se forjaram os casamentos

E o fosso, e os crocodilos, 
Todos os seus preconceitos - e os dos outros -
(e por isso ninguém se aproximava dela)

quarta-feira, 29 de abril de 2015

Van Gogh

Começou com uma pequena notícia num jornal de segunda linha.
Aquele crítico de arte amador,
ao examinar mais atentamente as obras de Vincent Van Gogh
Começou a ver algo que até ao momento
parecia estar a escapará aos olhos dos maiores especialistas :
É que elas estavam mal pintadas.

Através de uma nova técnica de análise
que recentemente começara a ter  seguidores
- o "blink" - (em português "o olhar de relance")
que este critico resolvera começar a aplicar às obras impressionistas

era possível ver que aquelas pinturas
não passavam afinal de simples borratadas infantis

Que os objectos e as pessoas retratados
estavam completamente deformados
que as proporções todas erradas, enfim.
e que as cores pareciam ter sido atiradas para ali
espalhadas por uma criança contrariada.

a notícia começou-se gradualmente a espalhar por outros meios de comunicação
e a dada altura chegou mesmo às principais revistas da especialidade

Os críticos, depois do cepticismo inicial
começaram paulatinamente a rever as suas analises.
E por fim acabaram por dar maioritariamente razão aquele primeiro perito.

A notícia caiu como uma bomba nas galerias
nos museus de referência, nos marchands
e por fim nas bolsas

Os valores das pinturas de Vincent começaram a cair de forma abrupta e descontrolada
O colapso foi inevitável.

O nome dele passou a ser maldito, evitado
excluído das obras de referência e dos curriculuns escolares
e por fim completamente esquecido.

E foi assim
que ao fim de todos estes anos
Vincent voltou a ser um pintor anónimo e fracassado.

quarta-feira, 22 de abril de 2015

O problema que ele via

O único problema que ele via
em se apaixonar por aquela bela jovem cega
residia no facto de ela ser incapaz de ver
o quanto bonita era

E por conseguinte
de ela nunca poder vir a entender a razão
pela qual ele se tinha apaixonado por ela
(por mais que ele lho tentasse explicar)

Mas por outro lado
o que ele não era capaz de ver
era como é que ela se tinha também apaixonado por ele
sem nunca alguma vez o ter visto

quinta-feira, 9 de abril de 2015

Você não é a actriz ?

Desculpe, mas ...
você não é a actriz ?

...

Desculpe ?

...

Você não é a actriz ?
(ái ... como é que ela se chama...)

...

Não estou a perceber...

...

Não é  você ? ...a ...
... actriz ?

...

Não.
Eu não sou a actriz.
Eu sou uma pessoa.

...

Ah... ! ... desculpe... pensei que fosse a actriz..
É que é tão parecida com ela...

...

Sim,
Eu sei.
Já mo disseram muitas vezes.
Mas eu sou a pessoa.

...

Pois é... realmente...
É que as semelhanças são tão grandes...

...

Sim.
Bem sei.
Já o afirmaram dúzias de vezes. ...
Que eu sou muito parecida ...  Aliás sou idêntica.
Mas eu sou a pessoa. Está-me a compreender... ?!

...

Sim, sim ...não se aborreça  comigo...
... é que eu pensei.... como estava ao pé da entrada para os camarins... eu julguei ... desculpe...

...

Não se desculpe...
é que eu não sou 'a actriz' .
Eu sou a pessoa. Está a perceber ou não ?

...

Não sei se ...

...

Não sei como é que as pessoas ...parece que não compreendem isto...
E eu estou cansada de lhes explicar...

...

Pois, olhe... foi um engano...mas eu estava convencida...
desculpe-me mais uma vez...

...

Não é preciso desculpar-se mais !
perceba de uma vez !
eu não sou a actriz ! ... ok ?
Eu sou a pessoa !

...

Ok... ok... eu não ... queria... perdo...
...então olhe... adeusinho ! tá ?

...

Mas espere lá  !...
Não se vá embora já...  sem mais bem menos...

Diga-me ao menos então onde é que é a entrada dos artistas...
É que eu já estou atrasada.

quinta-feira, 19 de março de 2015

A ultima vez que te bati

Quando foi a última que te bati ?

...

Lembras-te ?

(...tinha esta pergunta na cabeça ...)
Lembras-te quando foi a última vez em que te bati ?

(...)

Não pai,
não me lembro...

(...)

Lembras-te de alguma vez ?

...

Tens alguma memória disso ?

(...)

Não.
Nenhuma.

(...)

Ainda bem.

segunda-feira, 2 de março de 2015

Masturbação

Cristiano começara a masturbar-se
para poder fazer amor
com as mulheres com as quais queria fazer amor
(mas com as quais não podia fazer amor)

No entanto
tinha-se também apercebido
que mesmo masturbando-se
não conseguia ainda assim fazer amor
com todas as mulheres com quem gostaria de fazer amor

Nessa altura compreendeu.
(chegou depois à conclusão)
Que era por essa(s) mesma(s) mulhere(s)
que se tinha virtualmente apaixonado.

terça-feira, 10 de fevereiro de 2015

Em tempo real

Quando os Deuses inventaram o tempo
Percebem desde logo que está era uma invenção inútil
Oca e vazia
(Ficticia...?)
E que iriam precisar de seres mortais
De acontecimentos
Para que o tempo se tornasse Real

quarta-feira, 28 de janeiro de 2015

Tentativa n.˚ 3

Quando por fim Zenão se convenceu
de que a única forma de poder ter sexo sem gerar problemas a ninguém, era recorrendo à prostituição,
disse para si mesmo : "tem de ser Zenão ..."

E lá foi, perguntado de forma diplomática :
"quanto é ?"
A meretriz respondeu-lhe sem pestanejar:
"metade de tudo daquilo que tens"
Ele não discutiu.

Mas da vez seguinte dirigiu-se a outra profissional
fazendo-lhe a mesma pergunta.

A resposta foi todavia a mesma:
"metade daquilo que tens"

E assim sucedeu sucessivamente.

Como ia ficando cada  vez mais pobre
acabava por ir ter com prostitutas cada vez mais vulgares
(e reles)

Mas que nunca lhe chegavam a ter de lhe fazer uma borla.

terça-feira, 20 de janeiro de 2015

Tentativa n.˚ 2

Quando por fim àquele homem se convenceu
de que a única forma de poder ter sexo sem causar problemas de maior
era recorrendo a profissionais
ganhou coragem
e diplomáticamente lá perguntou  :
"quanto é ?"
a prostituta respondeu-lhe sem hesitar:
"metade daquilo que tens"
"metade?"
"sim, metade.
Se pensares bem, não é mais do pagarás noutro lado qualquer"
Ele não discutiu.

Mas a partir daí passou a andar com menos dinheiro na carteira.

quarta-feira, 14 de janeiro de 2015

Tentativa n.˚ 1

Quando àquele homem por fim se convenceu
de que a única forma de poder ter sexo
(sem causar inconvenientes a ninguém)
era recorrendo a prostitutas,
ganhou coragem
e lá foi perguntado de forma diplomática :
"Quanto é ?"

A profissional respondeu-lhe sem hesitar:
"Metade daquilo que tens"

Ele não regateou.