quarta-feira, 28 de outubro de 2015

A anatomia de Gray

Quando Dorian desapareceu,
a Filomena nunca desaparecia a esperança de o reencontrar.

Filho precoce de uma adolescência mal resolvida
era criança que crescia ao mesmo tempo que ela própria crescia também

Com a sua perda, bruscamente
Ele subitamente deixava de crescer.
Enquanto ela simplesmente envelhecia.

Depois, quando a raiva e o desespero tinham já dado lugar a uma aguda melancolia
aquela mãe limitava-se apenas a contemplar as diversas imagens que os peritos da polícia lhe iam desenhando.

Que iam sendo ajustadas e adaptadas
de acordo com as diversas idades  que o filho supostamente ia atingindo

Estes retratistas
que agora usavam computadores, e tacteis
em vez de pinceis e lápis

iam assim ajustando digitalmente
a fisionomia daquela criança

A anatomia das feições daquele menino
que se tornava rapaz e homem.

Mas por mais que a sua imagem
fosse envelhecendo na parede ou no ecrãn

Para ela
ele na verdade nunca envelhecia

Ao contrário do que sucedia ao seu retrato
no seu coração de mãe
Dorian mantinha-se sempre jovem.

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