quarta-feira, 30 de maio de 2012

Os Deuses dos ricos, e os deuses dos pobres

Descreve o primeiro dicionário enciclopédico Larousse de 1862, numa edição provisória da qual apenas existe actualmente um exemplar único (em posse de coleccionador particular), uma  comunidade mais antiga do que a celta que terá habitado uma area do norte da Germania ou da Jutlândia - na transição para as regiões nórdicas da escandinávia - , com algumas curiosas características. Terá sido aliás graças a aventureiros franceses que terão previamente acompanhado Napoleão nalgumas das suas incursões mais a norte, que esses vestígios terão sido descobertos. Todavia, esses poucos registos e artefactos arqueológicos acabarão por ter sido perdidos nos incêndios que se seguiram ao conturbado periodo da revolução na Russia, (que entretanto tinha entrado na posse desse espólio por vontade expressa do então Czar Nicolau II)

O que era mais interessante nesta sociedade prende-se com o facto de se terem encontrdo algumas curiosas descrições que indicam que naquela civilização os ricos adoravam deuses diferentes dos dos pobres. Ou seja : enquanto os ricos adoravam determinados deuses, os pobres adoravam outros deuses ...

E era também interessante perceber que mesmo quando se davam ascenções sociais, era normal trocarem uns deuses pelos outros (de acordo com a sua nova posição social )

Porque enquanto ricos acreditavam que, se o eram, o deviam também afinal aos "deuses da riqueza", os outros (os pobres ) , pela mesma ordem de ideias, culpavam esses mesmos deuses pela má fortuna que lhes tinham destinado... e por isso seguiam outros deuses marginais (mais rebeldes).

Quando conseguiam ascender socialmente - o que em todo o caso era sempre um fenómeno raro - era frequente trocarem os seus deuses (pobres) pelos dos ricos, pois provávelmente descobriam afinal que eles não deviam ser assim tão maus como isso, já que lhes tinham permitido agora enriquecer. (...mas também seria por vergonha  que  passavam  a esconder os seus antigos deuses -  porque lhes denunciavam as suas origens humildes...)

Por outro lado, os ricos caídos em desgraça, acabavam também por renegar os seus antigos "ricos" deuses, por terem permitido que ocorressem as desgraças que entretanto lhes sobreveio. (*)

Chegou-se a julgar (e alguns investigadores ainda o sustentam ) que a escolha dos deuses era de alguma forma imposta pelos reis ou pelos sacerdotes, ou forçada através da diferenciação das oferendas recebidas, já  que os mais pobres não teriam capacidade económica para poder adorar os deuses mais "caros" e ficavam assim presos num ciclo vicioso ( já que não tinham acesso aos deuses mais eficazes...)

Os registos possuem no entanto uma série de indicações contraditórias, e alguns dos estudiosos  põem mesmo em causa a propria existencia desta civilização, alegando tratar-se de uma pura invenção de alguns intelectuais revolucionários franceses, ou pensadores libertários como Marat, - ou outros desse mesmo conturbado periodo revolucionário - que tantas cabeças pôs a pensar  (e a rolar)

terça-feira, 22 de maio de 2012

Cair no esquecimento

talvez até conseguíssemos imaginar um futuro em eles não fossem famosos.
Em que os grandes artistas que conhecessemos hoje voltassem a ser perfeitamente anónimos (tal como começaram)
E que as suas obras tenham perdido (até) o seu exorbitante valor monetário

que Leonardo da Vinci tenha caido no esquecimento
(que já ninguem - excepto os calvos  - saiba sequer o que é a mona lisa)

que William Shakespeare nem sequer tenha existido como dramaturgo

que Andy Wharhol tenha passado à banalidade

que Pablo Picasso não seja mais do que um excentrico a quem os criticos deixaram de dar valor

que Toulouse Lautrec seja apenas um conjunto de posters publicitários "démodés""

que Vincent Van Gogh não passe de um louco esquizofrénico que afinal nem sequer se suicidou (o que o desvalorizou bastante)

que Alexandre Dumas se tenha tornado enfadonho

e que Fernando pessoa se torne novamente apenas um homem ridículo

E o que aconteceu ?

Nada.
(nada de especial)

As pessoas que detinham as sua obras, ou objectos de culto não perderam o valor do seu investimento de um dia para o outro. Não houve propriamente um "crash" bolsista (nenhum "crash" artista)
os quadros até continuaram sempre a valer o mesmo...

Mas o problema foi afinal mesmo esse

O resto é que começou a valer mais
(eles é que deixaram de se valorizar)

Os mercados passaram a dar valor a tudo o resto
às materias primas
às pedras preciosas em estado bruto
aos montantes monetários

(o dinheiro passou a ser mais importante do que eles)

e então
paulatinamente
eles deixaram de ter importância

Foi um lenta agonia, mas

o "petit dejeuner sur l´herbe" passou a não valer mais do que uma cesta de piquenique

os "campos de trigo" a valer mais ou menos o mesmo do que uma duzia de carcaças de pão.

e "o grito" a valer pouco mais do que uma caixa de medocaína,  (ou de Xanax).

segunda-feira, 7 de maio de 2012

A mulher do poeta


A mulher do poeta tinha deixado de se atormentar pela existencia de outras musas.
Como para além do homem, amava também verdadeiramente a sua obra,
não se conseguia deixar de fascinar pela extrema qualidade desses seus escritos "apócrifos"
(nos quais ele declarava esse seus "outros" afectos ...)

Ás tantas, a legitimidade dessas suas "paixões"
(a tolerancia para com essas suas "infidelidades")
dependia afinal da qualidade das obras que ele assim produzia (*)

E mesmo após a morte do poeta, ela não se coibia de afirmar :
" essa ?, não passa de uma paixão vulgar ...!" (de uma mulher vulgar...)
"...a banalidade dos seus escritos denuncia-o ! "
"... sinto-me traída ! "

sexta-feira, 4 de maio de 2012

O diabo e a dupla negação

Aquele diabo só tinha um problema :  o da dupla negação
(aquela que normalmente resultava numa afirmação positiva...)

Andava constantemente a tentar controlar os seus demónios
de forma a impedir que a seguir a uma negação, não surgisse outra a anular a primeira ...
e que viesse assim produzir o efeito contrário ...(ou seja, o correcto...)

Como vivia sempre preocupado e obcecado em viver como um ser oposto a ... oposto de ... (do bem ...do verdadeiro... do correcto... do positivo, etc )
conhecia bem os efeitos nefastos (quero dizer benéficos) da dupla negação
para os seus intentos de subverter tudo, de contrariar sempre tudo, de negar tudo... etc...

Essa sua maldição (a da dupla negação)
adquiria contornos verdadeiramente perversos (quer dizer virtuosos)
nalgumas línguas como o Francês ...(onde a dupla negação nem tinha o efeito contrário...)
E até mesmo para os portugueses, para quem "não fazer nada" ... significava afinal mesmo "fazer nada" , as vezes era o descalabro total...

Então quando as frases eram construídas na interrogativa ... era o diabo ! (quero dizer ... )
porque a interrogação afinal apenas sugeria mesmo a afirmação positiva
como o :"...não queres ? " que na realidade queria dizer "...queres ?"

Todas estas subtilezas linguísticas só serviam afinal para lhe confundir os planos...
e na sua febre de contrariar tudo, deixava-se invarialvelmente apanhar nessa sua propria subtil armadilha...

Tornado-lhe a vida verdadeiramente infernal  (...)