segunda-feira, 29 de dezembro de 2014

Filho transgênico

Com a adequada tecnologia genética
as adopções passaram a ser capazes de incorporar os genes das famílias de acolhimento.

Tudo isto porque os problemas de integração das crianças adoptadas se tinham tornado mais que muitos nas actuais sociedades egocêntristas.

E a taxa de devolução de crianças era altíssima
O que obviamente deixava marcas cada vez mais intoleráveis nos meninos.

Desta forma, com os infantes a adquirirem as suas próprias características,
as pessoas já não devolviam tanto os seus filhos...

Para eles, o processo era bastante natural.
Era tudo feito de forma muito gradual.

Era com se se tratasse de uma outra fase do seu crescimento.
Em que viam os seus corpos a transformar-se noutra coisa.

Todos os dias quando se olhavam ao espelho havia uma novidade.
E de um momento para o outro já não eram os mesmos,
mas não fazia mal.

Pois eles (v)iam-se tornando cada vez mais parecidos com os seus novos "país" (ou avós)
Ou até mesmo  eventualmente irmãos... ou irmãs.

O que era emocionalmente precioso para a sua auto estima
(e noção de integração)

Mentalmente é que a coisa era mais complicada.
principalmente quando havia aqueles pais mais intelectuais.
que não se satisfaziam apenas com as semelhanças físicas
e faziam questão que a adopção envolvesse também características de personalidade.

Mas isto era já também algo perfeitamente ultrapassável.
Mesmo que as criancinhas dessem ás vezes por si a interrogaram-se
Sobre quem de facto eram ...  mas afinal que diferença é que isso fazia de mais do que um período de adolescência ...?

Pelas regras era absolutamente proibido utilizar informação genética
que não pertencesse à família dos progenitores adoptantes (até à 3a geração). E as famílias tinham de fazer prova desses mesmos genes.
(para obviar eventuais disparates... como querer escolher características para os seus filhos).

Quando o processo estava concluído nem os verdadeiros (e originais) pais eram capazes de reconhecer os filhos que tinham gerado (e vice versa).
O que constituía também uma tremenda vantagem para eventuais conflitos posteriores.

E deixava (até) de ser significativo para os filhos
quererem conhecer posteriormente os seus anteriores progenitores...

Era este o caso do Ary
Uma criança de cor (como era aliás a maioria de casos nas agências de adopção )
Não deixava de ser particularmente interessante a transformação de um rapazinho negro numa criança branca (o que dava azo a processos bastante curiosos....)

Os pais do Ary não tinham simplesmente rendimentos suficientes para que ele pudesse continuar a ser preto.

sexta-feira, 19 de dezembro de 2014

O Falso Policia

O falso polícia deixava-se estar em frente aos bancos e não fazia nada.
E mesmo quando se davam os assaltos a única coisa que sabia fazer era ficar a olhar.

Ás vezes até fazia sinais com os polegares a dizer que estava tudo ok.
Quando as pessoas o interpelavam para que fizesse alguma coisa, então limitava-se a explicar que na realidade não era um verdadeiro polícia. Que era apenas uma pessoa que gostava de vestir aquelas roupas.

Também se começam a ver às vezes falsos médicos, ou enfermeiros.
Deixavam-se vaguear pelos corredores dos hospitais, ou dos centros de saúde (às vezes também pelas salas de espera). Quando sentiam necessidade de falar com alguém.
Ou que alguém lhes viesse falar.
Nem que fosse para depois simplesmente lhes explicar que afinal não os podiam tratar.

Os que se vestiam de padres, esses já circulavam de forma mais tranquila, pois já não eram tão solicitados, a não ser por uma ou outra senhora idosa (a quem lhes ouviam depois as confissões).

Estes falsos personagens (estes profissionais fictícios) nunca faziam o que era suposto fazerem.
Mas começavam a ver-se cada vez mais,  e em todo o lado sem que ninguém conseguisse explicar bem porquê.

E não era apenas a questão da farda (do hábito).
Havia cada vez mais pessoas a fazer coisas que não era suposto fazerem.

Ou a não fazer coisas que se esperava que fizessem... 
(Isso é que era verdadeiramente inesperado).

quarta-feira, 3 de dezembro de 2014

Cama de casal

E quando se deitavam para dormir
foram-se a afastando tanto um do outro
que começou a haver espaço na cama
para uma outra pessoa entre os dois.

segunda-feira, 10 de novembro de 2014

Brutamontes

A razão pela vejo tantas mulheres preferirem escolher para parceiros sexuais homens meio brutamontes....

Será por elas com eles se sentirem protegidas.
De poderem vir a ser violadas por homens meio brutamontes.

quarta-feira, 5 de novembro de 2014

Relação de futuro

Ele sentia que eles como casal
Não se conseguiam projectar bem no futuro

E assim, da mesma maneira como a via gradualmente
ganhar as características sordidas da sua ex-mulher
Também se via ele próprio
transformar-se nos perversos ex-namorados dela.

segunda-feira, 27 de outubro de 2014

Fábulas

Os outros animais como se sabe,
também há muito que deixaram de falar uns com os outros.

sexta-feira, 24 de outubro de 2014

Face a Face

E foi então
que aquele casal começou a sentir que estava na altura de dar um passo mais sério.

Agora que o Bebé já estava a caminho, já não mais razões para adiar,
com o devido distanciamento das respectivas cerimonias religiosas, acharam então que ja era chegado o tempo de formalizar o evento.

Aquele que naquele momento iria vincular de forma decisiva as suas vidas

"...Tens a certeza ?..." perguntou-lhe

"...Sim. e tu ? É mesmo isto que queres ?..."

"...Olha que depois vai estar todo o mundo a ver o que vais dizer..."
"...Sim, Vão todos servir de testemunhas da nossa relação..."

E foi assim que finalmente
alteraram o seu estado (civil) no FaceBook.

quinta-feira, 25 de setembro de 2014

Ao menos isso ...

Cansado de ver como a sua vida não passava afinal de um (simples) amontoado de coisas inacabadas
Percebeu então nesse preciso instante
Que ela tinha acabado de chegar ao fim.

segunda-feira, 26 de maio de 2014

Dupla personalidade

Se o problema dela era o da bipolaridade
o dele era a dupla personalidade
E era mesmo assim que os dois se tinham apaixonado

Ou melhor dizendo
era assim que eles constituíam  o seu triângulo amoroso
(que talvez se parecesse mais com um quadrado)

Pois se ele estava efectivamente apaixonado por ela
ela por seu lado estava apaixonada era pelo OUTRO
(por aquele no qual ele às vezes se transformava)

Que sendo ele próprio também
esse outro é que não lhe achava propriamente graça
a Ela

A não ser talvez
quando ela própria se tornava uma outra
(quando atingia alguns daqueles seus estados de euforia)

E levava assim  também ela  uma vida dupla
tolerando-lhe uma personalidade
enquanto ansiava pela outra
(aquela que realmente amava)

Por isso ainda que estivessem sempre juntos
os amantes nunca se conseguiam encontrar
e enquanto um se apaixonava pela sua fase depressiva
o outro pela sua euforia

Às vezes, mas nem sempre
encontravam-se quando muito amante e amada(o)
Mas curiosamente,
quem mais vezes se encontrava
eram precisamente aqueles dois que eram estranhos
e que nada diziam um ao outro

sexta-feira, 2 de maio de 2014

O conferencista francês

Aquele conferencista francês
de cada vez que tentava falar em português
soava antes a Espanhol.

O que só veio foi confirmar a minha velha tese :
Um Espanhol é isso mesmo.
Um Espanhol é na realidade um francês
a tentar falar português

(foi assim que nasceu o castelhano)

terça-feira, 29 de abril de 2014

O gato que se julgava um Tigre

Aquele gato julgava que era um tigre.
Uma grande e poderosa fera.

Devia possuir um qualquer lapso genético,
um gene recessivo.

Que o fazia passar por cima de milénios de evolução
de todos aqueles milhares de anos que o separavam dos grandes felinos.

O gato julgava ser um tigre
e para ele não havia outro ser superior a si mesmo na cadeia alimentar

E por isso assim se comportava como tal.
Como rei.

Daquela sua particular selva
urbana - no caso vertente

Tudo isto obviamente se passava independentemente do facto
de os restantes indivíduos daquele seu ecossistema
não lhe conferirem essa mesma importância
nem lhe sustentarem propriamente aquela sua aparente megalomania.

As pessoas até se percebiam que havia qualquer coisa de errado com ele
pelo olhar que ele lhes deitava,
ou pela forma como lhes parecia montar uma espécie de cerco.

Nunca lhes passaria é pela cabeça
é que ele o fazia para as tentar devorar.

As suas únicas vitimas acabavam por ser alguns sem abrigo,
cuja noção de realidade já não era também muito melhor que a sua.

Alguns num lampejo de particular lucidez,
chegaram mesmo a queixar-se de ter sido precisamente atacados por um perigoso felino,
mas nunca terão sido levados a sério.

Um dia chegou mesmo a devorar um deles
(ou pelo menos em parte)
sem que aparentemente ninguém tenha dado por isso.

Houve quem disse que o pobre coitado já tinha era iniciado o seu processo de decomposição.
Mas isso para ele não passavam de meras calúnias maledicentes.

Destinadas apenas a denegrir-lo
A si, que se considerava muito mais do que um leão,
capaz de tomar uma presa maior do que ele próprio.

O gato julgava ser um tigre.
Talvez até se julgasse um dente de sabre.
Particularmente quando alguma espinha lhe ficava encravada entre os dentes

quarta-feira, 9 de abril de 2014

Irmãos insufláveis

Olha, tenho de te explicar uma coisa.

Não sei se o teu irmão alguma vez te contou alguma coisa acerca disto, mas...
Quando surgiu o síndroma do filho único não havia muitas respostas para o que estava a suceder. 
Havia os que o atribuíam simplesmente ao egoísmo das pessoas...
ou ao estúpido corte de subsídios ... (e dos abonos de família)
Outros havia, mais conspirativos, que o atribuíam à água que bebíamos (que nos forneciam)

Ou até à poluição atmosférica ...estás a ver ?

Mas a questão é que aquilo tinha vindo para ficar. 
As mulheres, por motivos que ninguém conseguia bem explicar, não conseguiam ter mais do que um filho.

Mas se as respostas a esta situação eram muito limitadas, a única coisa que os cientistas tinham sido realmente capazes de demonstrar até essa altura, é que o crescimento psicossocial saudável desse filhos únicos
Dessas crianças sem irmãos (ou irmãs) 
nunca era tão saudável como como os que os tinham.

E as pessoas começaram a ficar preocupadas, sem saber o que haviam de fazer, entendes ?

Nessa altura os filhos eram realmente coisas únicas.
A coisa mais valiosa que as famílias efectivamente possuíam.
(ainda para mais sabendo que não iriam conseguir arranjar mais nenhum).

E os pais sentiam uma enorme frustração ao perceber que estavam impedidos de proporcionar a esses filhos precisamente aquilo que mais lhes faltava : um irmão.
Alguém com quem partilhar de forma mais saudável o seu crescimento.

E assim as pessoas sentiam-se também angustiadas e sem opções, estás a perceber ?

Havia famílias que optavam então por uma vivência comunal, 
convivendo o mais possível entre si, de modo a dar a ideia que as crianças eram todas filhas.
E que de certa forma eram todas irmãs...
(e às vezes para isso bastava apenas expandir um pouco o conceito de condomínio)

O problema  é que assim também se proporcionavam mais discussões entre os diversos "progenitores".
A decorrente multiplicação das figuras parentais multiplicava também as discussões ...
Em relação  às melhores opções a tomar, em relação ao modo de vida a seguir ...
... à melhor forma de educar as crianças...
ou simplesmente em relação a qualquer outra coisa ...

Percebes ?

Também havia quem conseguisse arranjar forma de ficar com filhos de outros casais por motivos económicos ou afins. 
Mas para além disso ser uma prática ilegal  (e facilmente detectável),
como te disse, o filho/filha era a coisa mais preciosa que uma família podia ter, 
e por isso era muito raro encontrar pessoas dispostas a isso, (a prescindir deles)
como podes imaginar.

Mas a maioria tinha mesmo é que se resignar à sua condição de pais mono descendentes que não tinham outra opção senão deixar os filhos crescer assim mesmo.
Sozinhos.

A mim, como vês, acabou por me calhar uma outra opção.

Os japoneses aliás tinham já há muito desenvolvido uma tecnologia bastante sofisticada para produzir esses tipo de objectos ...

Incomoda-te que utilize a palavra objecto ?

Mas mesmo que o tenham feito inicialmente para satisfazer determinados desejos (de alguns solitários), a verdade é que essa tecnologia acabava por proporcionar agora uma alternativa nova.

E na realidade acabava por constituir uma solução relativamente acessível para as famílias, sabes ?

O que é certo é que foi esta a escolha deles.
A dos meus pais.

Que eu havia de ter como irmão um boneco...
Sim, um boneco.

Porque é que me estás a olhar assim ?
Não gostas do termo é ?
Pois foi mesmo assim : um boneco.

Um boneco a quem eu era suposto (e para meu bem) considerar um irmão, sabes ?

Sim. Podia brincar com ele, mas ... também tinha de o respeitar.
E olha que ás vezes não era fácil, sabes ?

Porquê ?  ... porque ...
Porque eu sempre soube que os meus pais lhe davam normalmente mais atenção.
Essa é que é a verdade...

Mais cuidados ... mais carinho...  julgando que eu não me apercebia...
É até lhe davam mais presentes do que a mim ...

Mas eu percebi sempre.
Mesmo apesar de o fazerem quando eu não estava por perto.

Estás a entender ?

O que vale é que depois ele depois até acabava por partilhar praticamente tudo comigo.

Eu acho que eles ás vezes até faziam de propósito ... 
Para eu poder sentir alguns ciumes.

Acho que eles estavam convencidos que isso era também de alguma forma saudável.
E se calhar isso era mesmo normal.

Pelo menos era o que se diziam que sempre acontecera com os irmãos mais novos.
Quando os havia.

Mas acho que até hoje, só tinha conhecido um colega que tinha um irmão assim como eu...

Embora no caso dele era diferente. 
Porque o irmão dele era mais velho.

Os pais resolveram ter primeiro o irmão, antes dele nascer. 
Para treinar.

Acho que também ia gostar de ter um irmão mais velho. 
Assim em vez de ser eu a ter de tomar sempre conta dele, era ele que tomaria conta de mim.

Esse meu colega nunca mo disse, mas acho que deve ter sido bom para ele.
Ter desde pequenino o irmão por perto a olhar por ele.

Nunca chegamos a conversar sobre isso, mas acho que sim.

Ele também sempre foi um bocado calado e mais introvertido, de olhar fixo.
Assim como tu.

Mas não.
Não me estou a queixar de nada...  acho até que tive sorte.
Apesar de eu perceber que os meus pais na realidade sempre tiveram uma pontinha de preferência por ele, eu acho que até tive bastante sorte em ter tido o irmão que tive.

De resto fazíamos sempre muitas coisas juntos e em família...
só não gostava tanto quando o pai me mandava para a sala e ficavam os dois sozinhos no quarto quando a mãe estava fora.

Por acaso nunca pudemos falar bem acerca disso ... e aliás tinha-me feito prometer nunca referir isso à mãe...

Mas a verdade é que apesar de tudo era em todo caso mais fácil com ele contar-lhe coisas, 
partilhar com ele.
Ou simplesmente conversar.

Muito mais fácil do que o era com a mãe, 
ou com o pai, 
ou com qualquer outro amigo ou membro da família.

Acabei por confessar apenas ao meu irmão muitas coisas que nunca fui capaz de contar a mais ninguém, entendes ?

Nem sei porque é que te estou agora a contar estas coisas ... afinal continuas como sempre calado.
Como o meu irmão.

Isso às vezes irrita-me tanto ... lá estás tu outra vez com esse teu olhar fixo...   a olhar não sei para onde ...
Nem sei porque é que te resolvi ir buscar.

Afinal porque é que nunca me respondes ?
Porque é que nunca me dizes nada ?

quarta-feira, 19 de março de 2014

Uma nova Alinança

Ricardo que andava sempre à procura de ideias para novas tatuagens.

Quando começou a pensar finalmente em casar acabou por se lembrar de criar um novo tipo de aliança.

E resolveu então que seria dessa forma que haveria de consagrar os seus votos de casamento :
Com uma aliança tatuada

Afinal nem era pelo valor em si.
Pois consoante o tipo de tatuagem, ou o tipo de aliança, esta custaria talvez só um pouco menos do que as outras.
Teria era a vantagem de ser muito mais difícil de perder...

Também muito dificilmente se conseguiriam desembaraçar dela numa qualquer ocasião de fraqueza.

Agora, para alem da ideia em si, havia ainda muitos outros aspectos a definir :
Que tipo de design é que podia adoptar ?
Deveria possuir o mesmo texto que uma aliança normalmente contem ?
(O nome do cônjuge... a data do enlace... etc)

O momento do pedido acabaria por proporcionar também um momento interessante.
Pois ele levava o dedo embrulhado - e já tatuado- para o restaurante.

Lá teve de o disfarçar como pôde até à altura certa.
(com o auxilio de bolsos ou guardanapos)
A coisa acabou por ficar um pouco mais difícil quando ela quis deitar fora o embrulho.

Inicialmente encantada com o pedido, a noiva à ultima hora revelou-se mais convencional.
(e quis também uma de ouro na hora da decisão...)

Ricardo lá teve de se conformar com uma simples variante mista :
e tatuou apenas o contorno dela a traçejado

E assim desta forma sempre que por algum motivo a retiravam do dedo, ficava pelo menos lá marcado que ali residia uma aliança.
(mesmo que estivesse de momento ausente).

quarta-feira, 8 de janeiro de 2014

O sexo Oposto

Aquela mulher fazia tudo ao contrário

Em vez de se "produzir" para sair
ou ir para o trabalho
era nessa altura que se punha "à vontade"
(o que muito gente confundia com ser desleixada)

E se no emprego andava de forma informal, extremamente discreta
em casa fazia precisamente o oposto :
Ia buscar os saltos altos, o batom, etc.
e deixava-se estar absolutamente irresistível

Diagnosticaram-lhe uma espécie muito rara de personalidade invertida
mas também lhe diagnosticaram
uma vida sexual tão sólida quanto o seu casamento
(o que é ainda mais raro)