segunda-feira, 30 de julho de 2012

Carolina (que tambem se podia chamar Clara)

Gostava se se sentar incognita
rodeada de mesas vazias
o que não deixava de ser algo estranho
para uma mulher lindíssima como ela

os sinais que ostentava na face (ou no corpo)
não lhe afectava mínimamente a sua discreta elegancia
ou suave harmonia das suas feiçoes

Mas pareciam existir outras marcas, invisíveis
essas sim lhe pareciam desfigurar o rosto, mas por dentro
(e apenas por breves instantes)
em que essas memórias pareciam querer emergir

sexta-feira, 27 de julho de 2012

qualquer semelhança com a realidade é pura concidencia

Partia de imagens fugazes, impressões turvas
sabia portanto que podiam resultar algo distorcidas.

Em personagens completamente distintos das pessoas que as originavam
(tal como de resto acontece igualmente com as fotografias )

"está parecido ?"
(não é o que se costuma também perguntar acerca dos retratos desenhados ?)

terça-feira, 24 de julho de 2012

sketch #05

um velho de olhar parado e rosto inexpressivo
parece observar uma criança

sentado numa cadeira de rodas numa sala de espera
momentâneamente abandonado
braços apoiados sobre os braços do seu trono metalizado
permanece debruçado para a frente visando aparentemente o miudo

o olhar do homem chega a ser aflitivo porque é inexpressivo
quem é que não é capaz de reagir a uma presença infantil tão irresistívelmente doce como aquela ?

mas o velho persiste no seu olhar parado
e no ar doente e atónito que apresenta

o seu tronco todo balanceado sobre a criança
parece tomado de uma letargia paralisante
que não o impede de todavia fixar o seu olhar naquele bebé

a dada altura a criança movimenta-se
e esboça um grito-sorriso agudo e estridente

o homem fica na mesma
e assim permanece por um longo momento

mas ao fim de algum tempo começa a esboçar uma leve reacção
que se irá muito lentamente transformando numa espécie de sorriso

sorriso que se mantém também durante algum tempo
(bastante mais tempo do que um sorriso costuma demorar)
e assim lá permanece algo paralisado no seu olhar vagamente obcecado

quinta-feira, 19 de julho de 2012

Roubar a Alma

Será que estas pessoas à minha frente se importarão que eu esteja escrever sobre elas ?
será que eles se ofenderiam se o percebessem ?

Tal como se lhes apontasse uma maquina fotográfica
e disparasse sem lhes pedir licença
será que tudo aquilo que me ajudam a (tran)screver
não os perturbaria, se o conhecessem ?

Será que reagiriam como aqueles indigenas
para quem  tirar-lhes o retrato era como lhes estivesse a roubar a alma ?
(e não será ?)

Será que a minha escrita (que inspiraram)
não lhes será tão incomodativa tal como me por fixamente a olhá-los
para os poder desenhar ?

(E é legitimo que lhes diga ?)

terça-feira, 17 de julho de 2012

Carla que apareceu a meio do percurso

Chegou com um ar algo cansado à camioneta
os seus olhos intensos e claros (intensamente azuis)
denunciavam uma espécie de enfado (de exaustão ?)
que a propria voz ao telemóvel não conseguia esconder

E apesar do seu longo e profundo cabelo negro
e da sua pele cuidadamente bronzeada
ela parecia estar de alguma forma farta daquilo tudo
como se o facto de ser uma mulher atraente
lhe fosse agora de alguma forma um fardo pesado. difícil de carregar.

Quantas secas teve (já hoje) de aturar
a individuos mais ou menos conhecidos que constantemente lhe gabavam a cor dos olhos (que parecia que não conseguiam ver mais nada).
Ou a desconhecidos que inventavam os pretextos mais absurdos para meter conversa com ela no autocarro
(isto para não falar de algumas formas particularmente mais desagradáveis de assédio de que às vezes podia ser alvo no emprego).

Como se fora uma espécie de celebridade a quem toda a gente gosta de abordar na rua.

Talvez alimentasse agora um secreto desejo de ser feia.
de poder andar na cidade de forma anónima e tranquila
de poder sentir-se invisível para poder ser ela olhar

E utilizar as suas iris tão claras e cristalinas para aquilo que elas verdadeiramente serviam: para ver.
ver o mundo em volta despreocupadamente.

Talvez estivesse simplesmente farta de ser bonita

segunda-feira, 16 de julho de 2012

Involuntário

Na realidade nada daquilo tinha sido planeado
terá começado com uma forte impressão
com as sensações que determinadas pessoas com quem se cruzava na rua lhe começavam a sugerir
recorda-se de uma em particular - talvez a primeira
um sujeito à saida da estação de metro da pontinha
e começava a construir um filme na sua cabeça acerca delas
em que eles se tornavam nos personagens da ficção que elas próprias induziam

Era algo que não procurava própriamente
eram eles que o interpelavam
eram elas que vinha ter com ele
emoções perdidas, personagens que se soltavam da multidão
almas penadas ou conflitos interiores
que parecia que queriam que ele falasse por eles
que lhes contasse a sua história (a sua angustia)

sexta-feira, 13 de julho de 2012

Sketch 03

numa espécie de banco improvisado sobre um murete em almada
uma senhora idosa sentada
costas curvadas, com o cão ao seu lado
olhava em frente, não se sabe bem para onde
o velho cão com a cabeça à mesma altura da dona, olhava tambem em frente
observando tudo com o mesmo olhar parado da mulher
(tinha um olhar identico a ela)
parecia estar distraidamente a entender o discurso que aquela viuva ia discorrendo...

Seria interessante ver novamente aquela mulher algum tempo mais tarde,
após a morte do bicho
que viesse encontrar um parceiro, agora humano 
com quem pudesse partilhar esses mesmos momentos...
um senhor sensívelmente da mesma idade
que, na mesma situação, apresentasse o mesmo olhar parado e indiferente - mas concentrado - do animal, perante o discurso errático e repetitivo da mulher...

quarta-feira, 11 de julho de 2012

Sketchbook

Ele levava o seu bloco nos autocarros, mas não era desenhos que ele fazia dos outros transeuntes ...
Era escritas

E (porque) todas aquelas pessoas que com ele comungavam uma viagem, uma breve caminhada ou um simples cruzar duma passadeira já eram (podiam ser) seus personagens

Podia ser uma determinada feiçao, um gesto particular, uma forma de se vestir, ou uma frase entreouvida, e de repente sobrevinha-lhe a imperiosa necessidade do registo desse instantâneo. desse apontamento breve.
(desse esboço)

Se a princípio queria ser fotógrafo, e registar a realidade, mostrar as pessoas tal como elas são
(que era aquilo que mais o fascinava), percebeu todavia que isso podia criar alguns constrangimentos aos indivíduos visados. Havia quem ficasse verdadeiramente melindrado.

Nos tempos que correm, já não são os zulus em africa, ou outros aborígenes que não gostam que lhes tirem a foto com receio que isso lhes roube a alma. são os citadinos da nova sociedade cibernética, com temor do Facebook (ou outros de sitios de conteudo igualmente duvidoso).

A vida dos fotógrafos ocidentais tornou-se mais difícil (talvez seja por isso que eles acabam por ir todos para Africa a cobrir uma guerra qualquer ... porque é menos arriscado...)

Depois  tentou desenhá-los. Mas até mesmo aí começou a ter alguns problemas com os demorados olhares que tomava para os registar gráficamente.  (que depois queriam invariávelmente ver)
E depois havia simplesmente quem não gostasse do resultado ...

Por fim tentou mais uma outra coisa...