quarta-feira, 29 de abril de 2015

Van Gogh

Começou com uma pequena notícia num jornal de segunda linha.
Aquele crítico de arte amador,
ao examinar mais atentamente as obras de Vincent Van Gogh
Começou a ver algo que até ao momento
parecia estar a escapará aos olhos dos maiores especialistas :
É que elas estavam mal pintadas.

Através de uma nova técnica de análise
que recentemente começara a ter  seguidores
- o "blink" - (em português "o olhar de relance")
que este critico resolvera começar a aplicar às obras impressionistas

era possível ver que aquelas pinturas
não passavam afinal de simples borratadas infantis

Que os objectos e as pessoas retratados
estavam completamente deformados
que as proporções todas erradas, enfim.
e que as cores pareciam ter sido atiradas para ali
espalhadas por uma criança contrariada.

a notícia começou-se gradualmente a espalhar por outros meios de comunicação
e a dada altura chegou mesmo às principais revistas da especialidade

Os críticos, depois do cepticismo inicial
começaram paulatinamente a rever as suas analises.
E por fim acabaram por dar maioritariamente razão aquele primeiro perito.

A notícia caiu como uma bomba nas galerias
nos museus de referência, nos marchands
e por fim nas bolsas

Os valores das pinturas de Vincent começaram a cair de forma abrupta e descontrolada
O colapso foi inevitável.

O nome dele passou a ser maldito, evitado
excluído das obras de referência e dos curriculuns escolares
e por fim completamente esquecido.

E foi assim
que ao fim de todos estes anos
Vincent voltou a ser um pintor anónimo e fracassado.

quarta-feira, 22 de abril de 2015

O problema que ele via

O único problema que ele via
em se apaixonar por aquela bela jovem cega
residia no facto de ela ser incapaz de ver
o quanto bonita era

E por conseguinte
de ela nunca poder vir a entender a razão
pela qual ele se tinha apaixonado por ela
(por mais que ele lho tentasse explicar)

Mas por outro lado
o que ele não era capaz de ver
era como é que ela se tinha também apaixonado por ele
sem nunca alguma vez o ter visto

quinta-feira, 9 de abril de 2015

Você não é a actriz ?

Desculpe, mas ...
você não é a actriz ?

...

Desculpe ?

...

Você não é a actriz ?
(ái ... como é que ela se chama...)

...

Não estou a perceber...

...

Não é  você ? ...a ...
... actriz ?

...

Não.
Eu não sou a actriz.
Eu sou uma pessoa.

...

Ah... ! ... desculpe... pensei que fosse a actriz..
É que é tão parecida com ela...

...

Sim,
Eu sei.
Já mo disseram muitas vezes.
Mas eu sou a pessoa.

...

Pois é... realmente...
É que as semelhanças são tão grandes...

...

Sim.
Bem sei.
Já o afirmaram dúzias de vezes. ...
Que eu sou muito parecida ...  Aliás sou idêntica.
Mas eu sou a pessoa. Está-me a compreender... ?!

...

Sim, sim ...não se aborreça  comigo...
... é que eu pensei.... como estava ao pé da entrada para os camarins... eu julguei ... desculpe...

...

Não se desculpe...
é que eu não sou 'a actriz' .
Eu sou a pessoa. Está a perceber ou não ?

...

Não sei se ...

...

Não sei como é que as pessoas ...parece que não compreendem isto...
E eu estou cansada de lhes explicar...

...

Pois, olhe... foi um engano...mas eu estava convencida...
desculpe-me mais uma vez...

...

Não é preciso desculpar-se mais !
perceba de uma vez !
eu não sou a actriz ! ... ok ?
Eu sou a pessoa !

...

Ok... ok... eu não ... queria... perdo...
...então olhe... adeusinho ! tá ?

...

Mas espere lá  !...
Não se vá embora já...  sem mais bem menos...

Diga-me ao menos então onde é que é a entrada dos artistas...
É que eu já estou atrasada.