quarta-feira, 28 de novembro de 2012
A historia da sua vida
Sobreveio-lhe então a incontornável ideia
a brusca determinação
Após tantas hesitações ou buscas inúteis
chegou finalmente à conclusão :
Estava decidido a escrever a historia da sua vida
(que era isso que afinal queria mesmo fazer)
Experimentado em escritas como era
e sabendo como a maior parte das vezes as histórias tinha vida própria **
Sabia que tinha chegado a altura de o fazer
de a começar a pôr no papel
Só que não se tratava da vida que já tinha passado
não era sobre a historia da vida que já tinha vivido que queria escrever
o que pretendia escrever era a historia da vida que ainda não tinha vivido
o que queria realmente era (poder) escrever a historia da vida que iria viver*
a seguir ...
quarta-feira, 21 de novembro de 2012
concórdia
É como aquele casal que estava sempre de acordo em tudo
tinham os mesmos gostos
ouviam as mesmas musicas
preferiam sempre as mesmas opções
enfim, concordavam em tudo
até que um dia se resolveram separar
Ambos concordaram
terça-feira, 13 de novembro de 2012
Enigma
E por acaso alguém sabe como se chamava o cão da D.ª Milu ?
(A resposta só pode ser obviamente Tintim)
quinta-feira, 8 de novembro de 2012
honestidade
acima de tudo
procurava ser um homem honesto
mas o que significava agora ser honesto ?
significava agora que devia magoar ou desapontar practicamente todas as pessoas que conhecia ?
isso não podia ser
tinha que fazer aquilo que era melhor para todos...
só já não lhe podia chamar honestidade
sexta-feira, 2 de novembro de 2012
Arqueologia
Quando Eles edificaram a igreja d'Eles
sobre as ruínas do nosso templo,
esse foi o pior momento (quando já pensávamos que já não podia haver pior momento)
Depois da invasão
(depois da matança)
depois de carregarmos para a vala todos os nossos mortos (e os deles)
Houve ainda um tempo de desespero calado
em que parecia que a própria História tinha cessado
e que nada mais ia acontecer
em que nos contentávamos em chorar sobre as ruínas do templo
em rondar por ali, sem saber bem para quê
em lamentar a nossa miserável sorte com gritos de agonia
mas depois eles vedaram o lugar
como se já não (nos) suportassem mais ouvir os gemidos de angústia
como se nos quisessem amordaçar as lamentações com aquele tapume improvisado que ergueram
Quando chamaram o pedreiro livre
e chegaram também todos os outros
e começaram a trabalhar
não quisemos ainda perceber
não quisemos logo entender o que se estava a passar
quisemos ainda acreditar num impossível
Ele dava instruções precisas e apressadas
queria ver a obra rapidamente concluída (e conseguiu)
o que demorava gerações a fazer, ficou logo parcialmente acabado
porque ele não seguia as técnicas deles
não carregaram pedras para o fazer
(e ele de certa forma, se negou assim a si mesmo)
antes usaram os nossos meios
amassaram as terras e cozeram as pedras
tal como nós
isso também nos fazia acreditar num milagre
numa linda visão
(que o nosso culto podia ser restabelecido)
mas quando abriram os taipais
e nos mostraram o templo
e ele era branco (tal como o era o nosso)
mas (já) não era o nosso
era o deles, o que eles fizeram
era monstruoso
A mãe ficou destroçada, dividida
entre a ânsia de lá tornar aquele local (essa necessidade ancestral ... que era já física)
e a traição que isso agora significava para a nossa tradição
A avó estava simplesmente confusa, e insistia em lá ir todas as semanas
não percebia muito bem o que é que lá se passava, e queixava-se muito da sua fraca memória.
por não se conseguir lembrar daqueles rituais que agora lhe pareciam tão estranhos
O pai tinha de a ir lá buscar tantas vezes,
com ela aos gritos, e a chamar-lhe infiel
e a acusá-lo de ter deixado de temer a Deus ... de ter perdido a sua fé
sem perceber porque é que ele estava agora contra a (sua) religião
que não tinha sido assim que ela o tinha educado
às vezes só mesmo à força é que a conseguia trazer
mas tinha de ser assim
senão todos iriam pensar que nos tínhamos entregue à fé deles
e a nossa vergonha seria muito maior.
mesmo assim
muitos de nós ficávamos a rondar aquele lugar, até aos domingos
a observa-los
aquela meia dúzia de acólitos novos que eles iam arranjando
que curiosamente eram também os que nos cobravam os impostos
e administravam todas as outras coisas
as que não pertenciam a ninguém ...
(e muito menos a nós)
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