Olha, tenho de te explicar uma coisa.
Não sei se o teu irmão alguma vez te contou alguma coisa acerca disto, mas...
Quando surgiu o síndroma do filho único não havia muitas respostas para o que estava a suceder.
Havia os que o atribuíam simplesmente ao egoísmo das pessoas...
ou ao estúpido corte de subsídios ... (e dos abonos de família)
Outros havia, mais conspirativos, que o atribuíam à água que bebíamos (que nos forneciam)
Ou até à poluição atmosférica ...estás a ver ?
Mas a questão é que aquilo tinha vindo para ficar.
As mulheres, por motivos que ninguém conseguia bem explicar, não conseguiam ter mais do que um filho.
Mas se as respostas a esta situação eram muito limitadas, a única coisa que os cientistas tinham sido realmente capazes de demonstrar até essa altura, é que o crescimento psicossocial saudável desse filhos únicos
Dessas crianças sem irmãos (ou irmãs)
nunca era tão saudável como como os que os tinham.
E as pessoas começaram a ficar preocupadas, sem saber o que haviam de fazer, entendes ?
Nessa altura os filhos eram realmente coisas únicas.
A coisa mais valiosa que as famílias efectivamente possuíam.
(ainda para mais sabendo que não iriam conseguir arranjar mais nenhum).
E os pais sentiam uma enorme frustração ao perceber que estavam impedidos de proporcionar a esses filhos precisamente aquilo que mais lhes faltava : um irmão.
Alguém com quem partilhar de forma mais saudável o seu crescimento.
E assim as pessoas sentiam-se também angustiadas e sem opções, estás a perceber ?
Havia famílias que optavam então por uma vivência comunal,
convivendo o mais possível entre si, de modo a dar a ideia que as crianças eram todas filhas.
E que de certa forma eram todas irmãs...
(e às vezes para isso bastava apenas expandir um pouco o conceito de condomínio)
O problema é que assim também se proporcionavam mais discussões entre os diversos "progenitores".
A decorrente multiplicação das figuras parentais multiplicava também as discussões ...
Em relação às melhores opções a tomar, em relação ao modo de vida a seguir ...
... à melhor forma de educar as crianças...
ou simplesmente em relação a qualquer outra coisa ...
Percebes ?
Também havia quem conseguisse arranjar forma de ficar com filhos de outros casais por motivos económicos ou afins.
Mas para além disso ser uma prática ilegal (e facilmente detectável),
como te disse, o filho/filha era a coisa mais preciosa que uma família podia ter,
e por isso era muito raro encontrar pessoas dispostas a isso, (a prescindir deles)
como podes imaginar.
Mas a maioria tinha mesmo é que se resignar à sua condição de pais mono descendentes que não tinham outra opção senão deixar os filhos crescer assim mesmo.
Sozinhos.
A mim, como vês, acabou por me calhar uma outra opção.
Os japoneses aliás tinham já há muito desenvolvido uma tecnologia bastante sofisticada para produzir esses tipo de objectos ...
Incomoda-te que utilize a palavra objecto ?
Mas mesmo que o tenham feito inicialmente para satisfazer determinados desejos (de alguns solitários), a verdade é que essa tecnologia acabava por proporcionar agora uma alternativa nova.
E na realidade acabava por constituir uma solução relativamente acessível para as famílias, sabes ?
O que é certo é que foi esta a escolha deles.
A dos meus pais.
Que eu havia de ter como irmão um boneco...
Sim, um boneco.
Porque é que me estás a olhar assim ?
Não gostas do termo é ?
Pois foi mesmo assim : um boneco.
Um boneco a quem eu era suposto (e para meu bem) considerar um irmão, sabes ?
Sim. Podia brincar com ele, mas ... também tinha de o respeitar.
E olha que ás vezes não era fácil, sabes ?
Porquê ? ... porque ...
Porque eu sempre soube que os meus pais lhe davam normalmente mais atenção.
Essa é que é a verdade...
Mais cuidados ... mais carinho... julgando que eu não me apercebia...
É até lhe davam mais presentes do que a mim ...
Mas eu percebi sempre.
Mesmo apesar de o fazerem quando eu não estava por perto.
Estás a entender ?
O que vale é que depois ele depois até acabava por partilhar praticamente tudo comigo.
Eu acho que eles ás vezes até faziam de propósito ...
Para eu poder sentir alguns ciumes.
Acho que eles estavam convencidos que isso era também de alguma forma saudável.
E se calhar isso era mesmo normal.
Pelo menos era o que se diziam que sempre acontecera com os irmãos mais novos.
Quando os havia.
Mas acho que até hoje, só tinha conhecido um colega que tinha um irmão assim como eu...
Embora no caso dele era diferente.
Porque o irmão dele era mais velho.
Os pais resolveram ter primeiro o irmão, antes dele nascer.
Para treinar.
Acho que também ia gostar de ter um irmão mais velho.
Assim em vez de ser eu a ter de tomar sempre conta dele, era ele que tomaria conta de mim.
Esse meu colega nunca mo disse, mas acho que deve ter sido bom para ele.
Ter desde pequenino o irmão por perto a olhar por ele.
Nunca chegamos a conversar sobre isso, mas acho que sim.
Ele também sempre foi um bocado calado e mais introvertido, de olhar fixo.
Assim como tu.
Mas não.
Não me estou a queixar de nada... acho até que tive sorte.
Apesar de eu perceber que os meus pais na realidade sempre tiveram uma pontinha de preferência por ele, eu acho que até tive bastante sorte em ter tido o irmão que tive.
De resto fazíamos sempre muitas coisas juntos e em família...
só não gostava tanto quando o pai me mandava para a sala e ficavam os dois sozinhos no quarto quando a mãe estava fora.
Por acaso nunca pudemos falar bem acerca disso ... e aliás tinha-me feito prometer nunca referir isso à mãe...
Mas a verdade é que apesar de tudo era em todo caso mais fácil com ele contar-lhe coisas,
partilhar com ele.
Ou simplesmente conversar.
Muito mais fácil do que o era com a mãe,
ou com o pai,
ou com qualquer outro amigo ou membro da família.
Acabei por confessar apenas ao meu irmão muitas coisas que nunca fui capaz de contar a mais ninguém, entendes ?
Nem sei porque é que te estou agora a contar estas coisas ... afinal continuas como sempre calado.
Como o meu irmão.
Isso às vezes irrita-me tanto ... lá estás tu outra vez com esse teu olhar fixo... a olhar não sei para onde ...
Nem sei porque é que te resolvi ir buscar.
Afinal porque é que nunca me respondes ?
Porque é que nunca me dizes nada ?