terça-feira, 30 de abril de 2013

Inefável


Ele sabia que havia verdades que nunca lhe poderia contar
e por isso mantinha-se calado
permanecia distante e circunspecto

Mas já não era só isso

Percebeu entretanto pelo olhar dela que o silencio
já não seria só deliberado por Ele,
já era desejado por ambos

e parecia que também ela já se tinha apercebido
desse poder mágico que o pronunciar das palavras detinha

já não era só ele que tinha receio de o dizer...
era também ela que não o queria ouvir

e o silencio que ambos comungavam
era porque sabiam que tudo aquilo que pudesse ser enunciado
(que fosse capaz de transpor a barreira das palavras)

corria o risco de se tornar irremediavelmente real.
de se tornar terrívelmente parte da sua realidade

quinta-feira, 18 de abril de 2013

Flash Forward


Era costume naqueles dias as pessoas interpelarem-se uma às outras
julgando estar a reconhecer amigos, ou conhecidos.
mas a maior parte das vezes nunca eram
nunca eram as pessoas que julgavam reconhecer

havia muitos sósias uns dos outros
isto aconteceu porque os estereótipos se tinham entretanto tornado mais fortes do que nunca
os modelos ganharam uma influencia obsessiva entre as pessoas.
toda a gente se queria fazer corresponder a esta ou aquele padrão    ...
(a parecer com esta ou aquela figura ...)
dentro daquele estreito intervalo de imagens massificado
que lhes iam sempre impingindo

mesmo a diversidade inicial,
que ainda assim existia entre algumas ofertas comerciais
tinham-se entretanto desvanecido
no decurso das guerras comerciais e publicitárias altamente agressivas que se tinham desenrolado
no fim dessa guerra sobravam então apenas alguns mais escassos modelos dominantes (modelos alfa)
que por fim triunfavam

E por isso se transformavam
primeiro a si
depois aos filhos
(com a tecnologia genética altamente sofisticada que entretanto foi surgindo)

E por isso se passaram a confundir todos uns aos outros

(...)

"Olhe desculpe, você não é o Rita ?
Não, não, você deve-me estar a confundir com outra pessoa
ah peço imensa desculpa, mas você é mesmo parecida com ela ..
não faz mal..adeusinho sim ?

Olha-me a conversa daquele tipo...
Ele por acaso aquele fulano até me lembra alguém ... não sei é bem quem ..."

terça-feira, 9 de abril de 2013

Os homens invisíveis


A partir do momento em que ela foi possivel
(e devidamente regulada)
A invisibilidade

Houve como que uma febre
uma procura desenfreada pelo produto
por esse dispositivo que os tornava invisíveis
(com o qual nem sequer era preciso andar nu, sr. Wells)

O problema é que de inicio
não havia capacidade produtiva para satisfazer todos os pedidos
(para a procura que se gerou)

E foram apenas uns quantos a poder começar a usar
(apenas uma pequena maioria de eleitos)
que dormiram dias nas filas de espera para serem os primeiros

E para quê ?
para poder observar sem serem observados

Para poder dar azo
à sua vontade de poder olhar desinibidamente para o outro
(para a outra)

Sem ter de os incomodar
ou intimidar com o seu olhar obcecado

Ou apenas para não se incomodarem
com a forma como os outros os olhavam

Já que por Lei
também não havia mais nada que se podia realizar com esse tão mágico dispositivo

E para isso contribuíam os obrigatórios sensores de identificação
que permitiam a todos saber que estava ali alguém
E saber exactamente quem estava ali também.

Alguém que simplesmente não queria era deixar-se ver.

As pessoas passaram então a sentir-se acompanhadas de uma forma diferente
-algumas talvez incomodadas-

Havia os que que usavam para esconder algumas deformidades
(esses tinham tido prioridade na aquisição)

Outros apenas para não ter de se preocupar muito com o seu visual
a não ser quando isso fosse realmente necessário (imprescindível)

Ou então para poder andar mesmo nus

Não demorou depois muito tempo para que todos os pedidos fossem sendo finalmente respondidos.
Para que a(s) enormes lista(s) de espera fosse(m) finalmente esvaziada(s)

E então
à medida que as encomendas foram sendo satisfeitas
a rua passou a ficar também gradualmente mais vazia
até ficar deserta

o que não quer dizer que estivesse mesmo deserta

A princípio as pessoas ainda esbarravam bastante uma com as outras
enquanto os malditos sensores não estavam devidamente aperfeiçoados para o efeito
ou eram fornecidos por fabricantes duvidosos

mas na realidade
eles não tinham sido era concebidos para serem utilizados com tanta gente em simultâneo

E então
as pessoas tinham passado assim a andar todas  em ruas vazias
aos encontrões umas com as outras

quinta-feira, 4 de abril de 2013

Freeware


Nessa altura tinha-se tornado tudo gratuito,
Tudo

os filmes, as musicas, os jogos
a informação, as noticias, a pornografia
todo o tipo de software

Tudo o que nos ocupava o espírito
tudo aquilo para que estávamos acordados 16 horas por dia
tudo o que se tinha tornado afinal a nossa razão de viver

Ao fim e ao cabo
o valor unitário tinha-se tornado tão irrisório
(já que se repartia agora entre os biliões de pessoas que os consumiam em todo o planeta)

que se tinha decidido efectivamente aboli-lo
(ou então podiamos dizer que era na practica gratuito)

nessa altura então
tudo o que era o nosso mundo (virtual)
tudo era gratuito
tudo

Tudo
menos a comida
porque essa teimava em ser
inevitavelmente real

mesmo que de plastico ...e massificada
(e rapida de preferencia... para que se possa rapidamente voltar ao jogo...)
essa continuava a ser inevitavelmente paga

Mas nessa altura a comida
tinha-se já tornado simplesmente
uma mera forma de poder continuar a jogar
a ver filmes...
a consumir noticias... ou sexo virtual

E não se pode dizer que era realmente uma sociedade infeliz
não havia propriamente preocupação com os suicidios

Porque nessa altura era tudo gratuito, tudo

tudo
menos a comida
porque quem pagava afinal tudo
eram os grandes produtores de comida

As pessoas tinham simplesmente de continuar a viver (e a trabalhar)
para poderem continuar a jogar
e a pagar